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Viver na ausência

Fotos:
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Texto: RIOetc


 
[Duda Salgado d’Almeida]

Saudade não é sentir a falta, mas a presença.
Marisa Monte falou isso ao público, numa sexta-feira fria e chuvosa, sobre o que Arnaldo Antunes disse quando Cássia Eller morreu. Gosto dos três, muito. Em homenagem, Marisa canta “ECT” pela primeira vez. Música forte. Lembro de quando a ouvi, quinze anos atrás, na rádio, quando este determinava o que a gente ouvia. Aquele violão espanhol, letra meio Guimarães Rosa e voz agressiva me tocaram num lugar ainda incompreensível para uma criança. Guardei a música, que ficou anos naquele compartimento até a hora do seu regresso.
O que nos transforma sempre regressa.
O regresso do amor à casa não é fácil. Se a ausência é recheada de dor da falta – ou de presença – há ainda provação pior que essa. Quando duas pessoas, que estiveram em lugares diferentes vivendo suas próprias experiências sem o compartilhamento imediato do relacionamento, são colocadas frente a frente, na derradeira volta. O retorno. Quem vai pra casa, volta, e para voltar tem que ter ido. Para onde se vai? Ninguém que vai volta igual. Ir é transformar pra algo que não sabemos o que é. A quem fica, a readaptação. Viver sem, fazendo as mesmas coisas, num tom cinza que o Rio de Janeiro fez questão de acentuar nas últimas semanas. Recria-se o cotidiano com poucas cores, um cotidiano de delírio melancólico, onde simulamos a pessoa ao nosso lado observando por nossos olhos, interagindo conosco. E, sem nem percebemos, falamos alto em frente ao espelho, conversamos com o ausente presente. Viver na ausência é, de fato, viver na loucura. Para não me espatifar no vidro do aquário da realidade, pensava nas mulheres da guerra, cujos maridos eram arrancados do lar, descaracterizados por fardas iguais, sem perspectiva de notícia, ou retorno. Pensava nessas mulheres, tão louca fiquei. Mas era uma loucura interna, uma desorganização da cabeça. Pra organizar, música. Quando não agüentava mais conversar sozinha, música.
Criei uma prótese pro espaço vazio, e vivi com ela por longos 32 dias. Passei por todos os estágios de luto de um amor ausente. Entendi Romeu e Julieta, Jane Eyre, Desejo e Reparação. Nesse ano de 2012, quando todos os amores estão a um botão de distância, um bocado de dias é tempo enlouquecedor, digno de relato desesperado e dores crônicas que nem Rivotril faz passar. Pra isso ainda não há remédio. Só o tempo, tempo que é só meu.
Me adaptei plenamente à rotina cinza da cidade cinza. Os dias voaram. Uma ansiedade difusa me tomou, ansiedade disfarçada, que se manifestava nos pequenos atos e obrigações, mas não ligava nome à pessoa. Mas era ele, o amor ausente aproximando-se da porta de entrada, quase chegando. De véspera, um sono torto, pra preencher minutos, e um medo voraz. E se esse buraco imposto entre nós alargou-se tanto que não há mais nós dois? E se esse luto simulado de cotidiano estendeu-se, e você não me quiser mais, ou ainda pior: eu não te quiser mais? E se o amor confundiu-se com dependência, e agora que me fiz independente, descobri que era só isso? Pois se era possível enlouquecer ainda mais, aconteceu. Ele não pode voltar! Não pode ver o que fiz, nem o que me tornei. Não pode ver as calcinhas penduradas no banheiro, as maquiagens espalhadas. Nem os sapatos. E nosso quarto, imaculado, sem cheiro de gente, porque dormi no sofá. E a poeira. Não, ele não pode voltar! Por esses e mais mil motivos. Porque se ele não entrar por aquela porta e me olhar daquele jeito, estará tudo acabado. Porque suspeito que ele nem exista mais. Sou um animal numa jaula há tempo demais olhando pra mim mesma. Preciso me readaptar. Preciso me readaptar ao amor. Agora sou só instinto. Sobrevivência. Esqueci o abraço, o beijo. A mulher com saudade regride na escala da evolução. Fica peluda e louca. Alimenta-se de sobras. Pra acalmar, apenas música.
Então ele chega. Exausto. Com febre de casa. Me agarra como se fosse uma criança, e eu não consigo me mexer. Murmuro alguma coisa animalesca, que quer exprimir uma felicidade primitiva. Ele diz que não quer falar da viagem, não agora. Queria me mostrar uma coisa. Uma música. Ouviu música o tempo inteiro, pensando em mim. Músicas que a gente nunca conversou sobre, mas que ele sabia que eu ia gostar. Aquelas que parecem ter sido feitas de um pedaço da gente. Põe a primeira pra tocar. “ECT”, na voz de Cássia Eller. Senti a fala voltando. De alguma forma, recebi aquela mensagem de amor psicografada pelo Pacífico.
A música é um sinal, sempre.

Peço desculpas a ele, por expor nossa intimidade assim. Talvez eu esteja, ainda, um pouco louca.

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