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Ver o mar

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Texto: RIOetc

 

[Duda Salgado d’Almeida, texto e fotos]

Integrava meu rol de tristezas a minha cidade não ter bons museus. Sem querer destratar nenhum e ninguém, mas sejamos sinceros. Há (via) uma precariedade de boas exposições e museus no Rio de Janeiro. Se fosse uma disputa, seríamos belíssimos perdedores.

O passeio escolar repetia o mesmo circuito todo ano: Museu da Quinta da Boa Vista, Museu Histórico Nacional, Museu de Arte Moderna e um pinga-pinga de outros lugares, como o futuro-ex-finado Museu do Índio. As exposições eram sempre iguais. E acabavam rápido. Depois, era hora do lanche, e a gente se espremia em desconfortáveis bancos melados que atraíam centenas de abelhas. Fim. Essa dinâmica horrorosa só podia se justificar pelo Rio não gostar de museu. Não gostar é modéstia: odiar. E daí, era uma baita tristeza. Talvez seja culpa dessa velhice que nasceu comigo, mas museu pra mim sempre foi a maior diversão. Pra atingir o ápice da felicidade, basta uma breve exposição arrebatadora ou aquela sensação de que se viu tanta coisa, e ainda falta tanta coisa pra ver, que dá taquicardia. Por isso, devo prestar uma reverência ao Museu de Arte do Rio, o MAR. Primeiro, simplesmente pelo fato de ser um museu, construído na minha cidade carente de museus. Segundo, por ser um belo museu. E, por último, fazendo o comentário mais relevante quando se fala de um museu, as exposições são ótimas. Gostei muito de ver minha cidade como tema, na galeria do primeiro andar. Pinturas do século XVIII de artistas como Taunay limpam horizontes já familiares aos olhos. Uma pintura da Rua São Clemente, com belas casas casadas e o intacto morro atrás, ou do Aterro inteiramente nu, provocam pequenos risinhos infantis. No passeio 3D pelas ruas antigas do centro, minha amiga comenta, “parece Paris”. Sim, pior que é verdade. Parece Paris. Nós já fomos uma cidade europeia. Só não sei muito bem onde aquela Paris foi parar. Acho que uma cidade que não gosta muito de museu também não gosta de parecer um museu.

É uma sensação louca ver o passado da sua cidade em pinturas a óleo. Porque aqui tudo parece tão novo. Nós somos, em verdade, crianças, perto de uma Senhora Inglaterra ou uma Tataravó França. Mas, vendo aquelas colinas verdes e pequenas embarcações de madeira na Glória, há de se refletir se já não podemos nos considerar, ao menos, adultos de respeito.

Descendo as largas escadas de madeira, encontro a sempre fabulosa coleção do marchand Jean Boghici. Aquele senhor cujo apartamento em Copacabana pegou fogo, destruindo uma série de obras importantes e matando seus gatos de estimação. Sou vizinha de sua galeria e já tive oportunidade de ver algumas das obras na intimidade. Sou fascinada por sua coleção. Enquanto me engraçava com Modigliani e Tarsila, uma menina sorridente e sádica avisou que o museu fecharia em 20 minutos, e que se quisesse ver tudo, teria de correr. “Nossa, mas quantas galerias ainda faltam?”. Ao todo, eram seis. E lá me fui correndo para conseguir ao menos pisar no último degrau. Voei pela coleção Fadel e cheguei à imensa favela colorida construída de tijolos. O tema era ocupação urbana e moradia. Não esperava por essa. Vídeos e reportagens retratavam a ocupação de locais abandonados e exibiam frases e rostos tristes. Não tive dúvida como passaria meus últimos cinco minutos. Li os sonhos de cada um dos rostos fotografados. Sonhos de gente que não tem casa. Só uma mulher, de meia idade, falava em moradia. Os outros diziam que o sonho era ter filho, casar, ser feliz.

Muito doido como a gente às vezes não deseja o que precisa.

E eu, desejo o quê? Quando criança, desejava um museu na minha cidade. Depois, esqueci. Vinte anos depois, lá surgia, com uma pincelada de Niemeyer, bem na Praça Mauá. Só quando desemboquei na vista do porto é que lembrei do que tinha sonhado um dia. Talvez, parte de sonhar seja esquecer. Sonhar é virtual. Fica guardado, não de corpo presente. A gente só se dá conta que foi sonho quando acontece. Quando vira verdade.
Um dia, sonhei um museu. Hoje, sonho outras coisas que não lembro. E quando chegar o dia, eu acordo.

 

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