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Todo dia é dia de ser grande

Fotos:
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Texto: RIOetc

 

[Duda Salgado d’Almeidatexto e fotos]

Maldito trânsito de rotina. Mesmo que não fosse rotina, continuaria maldito. Lagoa Rodrigo de Freitas, 9h30 da manhã. O carro disputa corrida com uma tartaruga. Bengalas saem na frente. Acelero um pouquinho. Paro. Mais um pouquinho. Ponto morto. Reparo nos lados. Vejo um senhor queimadíssimo de sol, óculos escuros espelhados, a pele já folgada, uma bunda murcha envolvida pela sunga retangular vermelho-sangue, meias brancas e tênis de lona. Com a mão direita, segura o poodle preto felpudo. Com a direita, a sacola de uma loja italiana. Movimenta os joelhos no ritmo da fala. Tinha jeito que reclamava de algo com a mocinha balzaquiana de bicicleta elétrica. A relação entre os dois, só posso imaginar. Pode ser que nem se conheçam. Não há tempo. Preciso acelerar mais um pouquinho, porque esse pouquinho evitará que o senhor impaciente do carro de trás buzine. O mundo lá fora não tem som, mas a trilha sonora do mundo interior tem a voz do Chet Baker. Meu destino é a Penha. Estive lá um par de vezes. A primeira foi pra visitar a família de uma amiga. Sou grata pela ocasião. A mãe dela morreria poucos anos depois. Um par de anos, talvez. É uma recordação bonita; o pai e a mãe juntos, e seus gatos. Pouco depois eles se separariam, e depois, o acidente. Ela me lembra as personagens do Almodóvar. Mulheres mais velhas, fortes e bonitas. Dramáticas. A segunda vez foi mais solar. Fui ver o show de um grande amor. Ele ia tocar num clube. Era na época que a gente não conseguia parar de se tocar. Durou, durou bastante. Fomos contra a ciência e a física. Foi uma bela história de amor. Fechando a tríade, um motivo capital. Trabalho, e sempre ele. Fui visitar um galpão onde guardam-se aquelas coisas que a gente só vê vez ou outra na vida, mas que dão belos cenários.

Quando a gente faz um filme, a gente reproduz a vida em metáfora. Uma vida que não é de verdade, e por causa disso, a mais absoluta verdade.
Potência máxima da mensagem. Tudo, absolutamente tudo, converte-se no mesmo vértice. A cor dos copos, o sofá, o gesto, o diálogo. Texto e subtexto alinhados como uma peruca bem penteada. Se cada objeto falasse, diria o que o personagem pensa. Isso é filme, cinema, arte. Essa não é a dinâmica de vida. A gente não converge em potência. Cada objeto, móvel, roupa ou cor de esmalte quer dizer uma coisa diferente. Somos um acúmulo de mensagens opostas. Diariamente nos chocamos com estrangeiros e familiares, com o reflexo do espelho. Porque cada poro fala uma língua diferente, numa babel contorcionista.

Estou aqui mas queria estar lá. Deixo de atendê-lo porque adoraria que ele estivesse aqui. Digo “oi” querendo dizer “tchau”. Adoraria dizer a ela tudo que penso, mas ao invés disso, sorrio e digo que está tudo bem. É tudo falso, marcado e ensaiado, como vestir-se para um compromisso indesejado pela manhã. É como ficar presa no trânsito. Exceto que aqui, não há cenário. Isso aqui não é um filme. A cada passo, há uma surpresa. A cada avanço, uma visão. E tudo se converte, num mesmo vértice, para um fluxo imperfeito de amor, morte e dicotomia chamado vida.

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