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Sobre mudar de cor

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Duda Salgado d’Almeida]

Quando fiz vinte anos, queria ser azul. Azul meio-tom, mais pra turquesa.
Cheguei a me pintar inteira num banheiro que até hoje guarda as cicatrizes do
evento. Na infância, quis ser transparente. Uma geleca translúcida, pra passar
despercebida pelo olhar alheio. Queria com aquela força infantil, de sonhar com
isso todo dia.
Acredito que, se cada um pudesse escolher sua própria cor, dificilmente seríamos
esse tom entre o amarelo, o rosa e o marrom.

Nesse verão, decidi mudar. Porque é totalmente possível mudar. Me retirei por
quinze dias pra morar na beira da praia. O café da manhã era o bom dia do sol, a
soneca da tarde embalada pelo sudoeste. O sol se punha às oito da noite, e já era
hora de pensar em se recolher, pra recomeçar tudo no sol seguinte.
Virei cor de jaca-jambo. Mudei a textura do cabelo, a cor dos pêlos do braço.
Mudei o formato da barriga e a pele do rosto. Descobri o que toda garota carioca
já deveria saber de barriga: dá pra mudar, reinventar, virar outra.
Quando virei cor de jaca-jambo, quis botar a barriga de fora. Mesmo que não seja
a barriga mais em forma que já tive. Quando virei cor de jaca-jambo, passei a
descabelar mais a peruca, jogar pro lado e não se importar com o imenso topete
que se forma. Quando virei cor de jaca-jambo, fiquei com desejo de comer um
monte de frutas, e andar mais rápido, e pular, e largar o corretivo das olheiras.
Quando virei cor de jaca-jambo, descobri que a brancura me continha. Que posso
fazer, se sou branca mesmo? Em algum momento a brancura voltará, tomará
posse de seus montes sacolejantes que agora se ouriçam para o sol. Voltará
para lembrar que nem sempre tudo é sol, praia e mar. E não adianta persegui-
lo mundo afora, buscando o eterno verão. Mesmo que a cidade seja, o céu nem
sempre sorri. E nem sempre a gente quer sorrir pro céu. Os dentes também
mudam de cor.

Lembrarei com carinho desse verão de jaca-jambo, que engoliu meu aniversário,
me fez correr na chuva quente e me jogar no mar. Esse verão quando curei o
medo, abri os olhos debaixo d’água, remei longe longe longe em cima de uma
prancha, dei um óculos pra Iemanjá (bem à contragosto), fiz lançamento de
tatuí, quase perdi o dedo para uma vieira enfurecida, aprendi a abrir ostra, me
desprendi da franja, consegui lembrar do que sonhei a noite, completei um
quarto de vida. Mudei de cor, mudei de tom. Envelheci.

Quando era criança, queria ser invisível. Aos 20, queria ser azul. Hoje, aos 25,
quero ser espelho do céu.

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