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Quando a vingança chega

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Texto: RIOetc

[Duda Salgado D’Almeida]

Infância é o nome do palco trágico no primeiro ato de uma vida. Colecionamos histórias antes mesmo de nascerem os caninos. Não sinto saudade dessa fase. Vivê-la foi como aquela frase de William Carlos Williams que abre “O Uivo”, de Allen Ginsberg: “Senhoras, levantem as barras de suas saias, pois vamos atravessar o inferno”. Nesse caso, crianças, segurem bem suas lancheiras.

Eu sempre quis ser grande. Não lembro direito da infância, mas há coisas que recordo com o coração pesado. Entre essas, um colégio que fiquei por somente uma série, na idade mítica dos 11 anos.

O colégio ficava no meu bairro das Laranjeiras, quase Cosme Velho, na curva. Era católico e muito, muito antigo. Aceitou somente meninas até o fim dos anos 70, e ostentava a medalha de ouro da tradição. A arquitetura, belíssima, era coberta de um rosa clarinho, cercada de jardins bem aparados. Lembro de como era louca essa coisa de colégio. Alguns amigos freqüentaram a vida inteira a mesma escola. Outros, meu caso, eram do tipo saltatórios, iam de um pro outro. Comecei em escolas ultra liberais, mas na 5a série, uma troca brusca: saí de um casarão em botafogo cheio de crianças descalças prum gigantesco prédio de mais de 100 anos nas Laranjeiras. Não me opus. Sempre gostei de mudanças. Então fui engolida por uma das experiências mais traumáticas da minha vida.

As colunas gregas não me amedontraram, nem a classe com o dobro de alunos. Tudo parecia desafiador, e intenso. A arquitetura era linda. Eu não tinha medo de freiras – minha avó Téologa dava muito mais medo – e nem da biblioteca imensa, paixão a primeira vista. O problema foi a forma infeliz como uma professora me tratou na frente de uma turma que não me conhecia, e passou a me ver como um objeto estranho. Em pouco tempo me tornei a personificação do abominável, uma espécie de demônio de 11 anos, cabelo curto e sapato 34.

Naquele ano aprendi que ser diferente era ruim, que os adultos podem estar errados e que o maior problema são os coniventes, que ficam calados. Que chorar na frente de 40 pessoas não é a melhor coisa a se fazer, e que a resposta mais rude que a infância nos oferece é a risada demolidora.

Acabado o desabafo, mas prosseguindo cronologicamente com as conseqüências desse ano funesto, digamos que comecei a peitar tudo e todos, principalmente professores. Virei uma menina difícil, argumentadora e extremamente crítica. E nunca mais consegui tirar uma nota boa em ciências.

 

Os anos passaram. Conheci um escritor que também estudou no tal colégio. Nos tornamos amigos. Ao contrário de mim, a experiência dele lá foi maravilhosa, tanto que voltou como professor de Filosofia. Ele queria sentir o cheiro daqueles corredores centenários; disse que era uma espécie de vingança. Vivia sendo suspenso e seria divertido inverter o jogo. Tudo seria bastante redondo, não houvesse trombado com o desapontamento. Esse é o trauma infantil na idade adulta: retornar a um lugar em que você foi tão feliz e ver que tudo mudou.

Então o destino vingou-se dele.

Já mentalizei muitos tipos de vingança contra esse colégio, e a professora. Pensei em mandar uma carta contando o mal que me fizeram e o quão cruel foi aquele ano. Nunca fiz nada, exceto olhar para a fachada como quem olha a Esfinge.

Eis que então, nessa semana, sentada numa sala ampla ouvindo a professora de Psicologia e Desenvolvimento dar exemplos reais de como certas escolas estigmatizam crianças para o resto da vida, sinto novamente o cheiro daqueles corredores. A professora fala de um caso específico, uma tal escola que havia mandado um comunicado aos pais de um aluno de 10 anos dizendo que tomassem cuidado pois seu filho estava virando viado. Isso mesmo, viado. A indignação foi geral. As pessoas berravam. Uns diziam que era mentira. Eu sabia que era verdade. Confirmei o palpite no fim da aula.

A vida é redonda. A vingança é posta em nossa frente diariamente, como uma tentação. Eu digo que devemos nos vingar, mas não nos moldes da crueldade. Devemos nos vingar torcendo para que uma situação traumática retorne a nossa porta, e que estejamos diferentes para encará-la e dissolvê-la. Nem que seja novamente numa sala de aula.

 

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