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Pulgas e carrapatos

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Duda Salgado D’Almeida]

Minha casa está infestada de carrapatos e isso não é piadinha do Kafka. Bolinhas pretas ambulantes fazem a coberta branca parecer um vestido de polka dots lisérgico. O sexo masculino da casa fez o que se espera do sexo masculino: desesperou-se e fugiu.

Um dos dogmas de ser adulto e responsável é agendar uma dedetização, aniquilar a população que já morava lá antes de você, promover um verdadeiro genocídio de formigas, traças, baratas e cupins. A população aqui é de carrapatos e alguém determinou que não podemos conviver juntos, e o pensamento é “são eles ou eu”. Então um número se materializou em minha mente. É assim que a propaganda funciona. As pessoas dizem que ela é efêmera, mas jamais subestime o poder de um jingle grudento repetido a exaustão por toda uma infância. Fui exposta a musiquinha dessa dedetizadora e, vinte anos depois, frente a iminência de um ataque insetívoro, gritei pelo 25696969 como se fosse Jesus Cristo. Eles foram cordiais ao telefone. Vão mandar um cara pra avaliar a casa. Não sairá por menos de R$1.000,00. Oh, Rio de Janeiro… Em algum momento me perdi de você por essas ruas de números esquizofrênicos.

O cara chega. O logo da empresa é o mesmo. O avaliador tem voz de desenho animado e um sotaque mágico. É um senhor bastante efeminado e usa uma enorme aliança dourada. Tem jeito de homem religioso que encontrou a redenção. Respeito muito esses homens, de verdade. Ele é gentil, vê canto por canto da casa com uma lanterninha. Fala muito de frestas. Frestas, frestas, frestas. Nessa casa há muitas frestas. No chão, na varanda. Todo o seu discurso é permeado por palavras ligadas a pulverização de insetos e sua fisiologia. A percepção desse homem está envolvida num véu de termos técnicos relacionados a dedetização. É como se toda a sua subjetividade passasse pelo orifício da mangueira fina que depositará o líquido branco assassino em todas essas frestas. Ele olha os objetos da casa e exclama “Você gosta de bicho, né”. É. Vivo em meio a cobras de madeira, escaravelhos azuis, estátuas de animais indígenas de poder, um cavalo oriental, um banco-carneiro, pesos de papel de borboletas e seguradores de livro de cavalo. Ele pergunta se quero uma caneta de brinde e diz que se fosse dono da empresa não faria as canetas com essa empresa, porque a cavidade onde mora o liquido delas é pequena, por isso não duram muito.

A presença daquele homem me faz sentir menos inseto.
Quando certa manhã acordei de sonos intranqüilos, encontrei-me em minha cama metamorfoseada num inseto monstruoso. Estava deitada sobre minhas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, vi meu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo de qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Minhas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante de meus olhos.

Mas a salvação virá, em breve. Não é isso que dizem as propagandas?

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