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Os amigos e a cidade

Fotos:
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Texto: RIOetc

 

[Duda Salgado d’Almeida]

É oficial: acabou. E por isso, há motivo para comemorar. Esperei longamente por esse momento. Nenhum fim é fácil, por mais que seja desejado. No luto do cimento exposto e das paredes nuas, eu precisava de amigos que enchessem essa casa de risos, sentassem nas cadeiras novas e benzessem esse novo lugar. Minha casa. Eu liguei, eles vieram. Nem sempre eles vêm. A vida não é brincadeira. As pessoas têm horários, filhos, problemas judiciais. Nem sempre, quando se pede para vir, eles vêm. Mas, mesmo em cima da hora, de jeito improvisado, vieram todos. Era pra ser. Milagroso como o tempo que sobra nas nossas agendas. Arrumamos a casa correndo – pra arrumar, sempre falta uma perna. Sempre falta coisa. Uma casa nunca está totalmente pronta. Só está pronta quando você a deixa. A campainha toca. É minha amiga. Sempre a primeira a chegar. Não tem dificuldade com ela. Me ajuda com as últimas coisinhas. Tipo dobrar o cobertor que arrastei pra sala porque o ar estava muito frio e encostar os quadros que ainda não deu pra pendurar na parede. Sentamos na cozinha, na mesinha nova, com os banquinhos novos. Conversamos num crescendo e a voz vai ficando cada vez mais fina. E ela diz uma coisa que comunica exatamente quem ela é. “Nunca briguei com um amigo na vida. Se for pra brigar, brigo com as minhas irmãs, porque sei que é uma relação eterna. Mas amigo, ah, eu nunca brigo. Espero e deixo passar, e sempre passa. Não vale a pena brigar com amigo”. Fico um tempo pensando nisso, e no jeito que ela disse. Transbordando sinceridade. Meu marido aparece, saiu do banho. Mania de tomar banho em cima da hora. A campainha toca, é outro amigo, namorado da minha amiga que nunca briga. Namorados, mas moram juntos. Eu que apresentei. Fico muito feliz de tê-los juntado. Melhor ainda é estar com eles. É aquela sorte onde uma grande amiga sua se apaixona por um grande amigo seu e eles são um casal fabuloso, que se ajuda crescer e faz rir. Eles enfrentam problemas para alugar uma casa nova, mas acredito que conseguirão resolver. É chato, demorado, intenso. Ele chega com dezenas de sacos de supermercado. Vamos cozinhar. Um dos meus pratos preferidos, frutos do mar com risoto de limão siciliano. Na verdade, ele, que é um super chef, vai cozinhar. A gente só vai ocupar os banquinhos de acrílico, sentir os aromas e falar alto. Meu marido comprou um monte de cervejas para degustarmos, daquelas com sabores exóticos e garrafas lindas – que a gente vai lavar e colocar na estante. Cerveja de coco, cervejas frutadas, cerveja produzida nas ilhas Fiji para salvar tartarugas locais, cervejas pilsen e mais um monte. Abrimos e tomamos, umas são melhores que outras, mas são todas ótimas. Não demos azar de abrir uma que não tivesse um ótimo gosto. Sorte, sorte. A campainha toca de novo. É mais um casal de amigos, com uma garrafa de vinho. Agora a cozinha está lotada, e mal dá pra se mover. As vozes aumentam, a musica aumenta, o risoto está quase lá. Os amigos reclamam do trânsito. “É o dia da inauguração da árvore da Lagoa”, dizem. Ouvimos barulhos de fogos. Vamos tentar ver uma pontinha do que acontece, porque infelizmente o apartamento não tem vista. É aconchegante, mas sem vista. Corremos para a janela do meu escritório. Sim, há uma pontinha iluminada de árvore, mas oh, os fogos. Os fogos sobem muito mais alto que a árvore e explodem bem na linha da janela. Estamos num camarote de fogos! Primeiro os verdes, depois vermelhos, depois dourados. Um de cada vez, bem devagar, estourando e fazendo fumaça. Abrimos uma cerveja de banana, e que delícia! Pra combinar com a cor dourada da cerveja, começa uma procissão de fogos dourados, em cascata, que vão acelerando, acelerando, acelerando e em minutos o céu está completamente branco de fumaça e fogos dourados. Parecemos crianças, de boca aberta e olhos arregalados. Nunca vi fogos tão de perto. Posso não ter uma vista, mas tenho vista de fogos. E o cachorro nem se importa, pelo contrário; fica de pé nas patas traseiras, querendo olhar também o que a gente tanto vibra. Voltamos para a sala, arrumamos a mesa com as panelas fumegantes, sentamos e nos servimos. A comida está incrível. Batemos palma pro chef, sempre ele. As pessoas pagam grandes dinheiros para ter acesso, mas agora ele é apenas nosso amigo generoso que faz questão de nos servir. Estou cansada, virada, doente, mas nem lembro direito disso. Só quando dou a primeira garfada no peixe, e não sinto gosto algum, por causa do nariz entupido.

A vida não perfeita. A vida é difícil. A gente tem tempo escasso e problemas judiciais. Problemas afetivos. Problemas financeiros. Problemas de saúde. Mas tudo passa. As coisas surgem, atingem seu ápice e depois explodem, transformando-se em pequenos flocos pelo ar. Como fogos de artifício, que a gente vê da nossa janela, acompanhado dos nossos amigos.

 

Foto: Lucas Landau

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