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O canto da Sereia

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Duda Salgado d’Almeida]

Foi no fim de semana passado. Lia o jornal sentada confortavelmente no sofá, com meus três machos anciões aos meus pés, tirando a soneca antes do almoço. Lembro de ter pensado, “ainda bem que não são mais filhotes, senão roeriam esse sofá, rasgariam o jornal, fariam o diabo. Que sorte, que sorte”. E naquele momento, respirei aliviada pela paz que duraria muitos anos. É só isso que consigo lembrar agora, enquanto uma cachorra fêmea de seis meses rói meu dedão do pé. O universo ri de mim e da minha inocência, e lá vai a pequena peluda arrancar o cascalho das plantas e trazer para o tapete recém-lavado cor-de-marfim.

Ela entrou na minha vida tão inesperadamente que coube a mim ajustar-me. Foi no Parque Guinle, a pedido de uma pessoa interessada nela, que se deu nosso encontro. Confiou-se a mim a tarefa de conhecê-la, ver se era uma cachorrinha bacana, tranquila. Lá fui eu. Quando dei por mim, havia uma bolinha preta de pelo no meu colo, saracoteando, me olhando com aqueles olhos de amor. Acabou que quem saiu dona dali fui eu, naqueles atos corajosos que fazem a perna do herói bambear depois. Minha casa ganhou uma nova habitante, e novos restos de meia furada pelo chão. Abençoada por Iemanjá, com ginga de balanço do mar, só podia se chamar Sereia.

Eu e Sereia na nossa alcatéia. Cabe a ela conquistar três cães maduros e ciumentos, com nomes e personalidades fortes. Dois deles são o alter-ego de John Fante, o outro é o filósofo alemão mais famoso de todos os tempos. E ela, tão ondina, leve, jovem. Seis meses atrás, morava numa barriga. Agora, mora em Ipanema, num apartamento cor de gema de ovo. Precisa do olhar constante, de brinquedos de morder e engana-se fácil quando a gente finge que joga os objetos no ar. Ganhou um porco de plástico vermelho, que mais parece um despacho de macumba. Virou seu brinquedo preferido. Sereia macumbeira, curiosa, festeira.

A chegada de Sereia mexeu com as minhas emoções. Cheguei a ter febre no dia de apanhá-la. Mesmo assim, fui. Queria que soubesse que eu também me entregaria a ela. Só quem é louco por bicho sabe do sentimento que estou falando. Precisava estar lá para dizer que aquele colo seria dela enquanto existisse nesse mundo.

Sereia rosna para o nada.

Talvez estranhe esse mundo de homens onde veio parar. Sem pedir pra existir, sem poder pra manipular, sem ego, é completamente indefesa. Só tem a seu favor o instinto, justo o que nos falta. O cão é a prótese do homem perfeito.

Talvez Sereia devesse ter nascido numa floresta. Negra como a noite, se camuflaria bem. Esguia, rápida como uma serpente marinha. Faro apurado e ouvido espetacular. Ao invés de rosnar para o salto da vizinha de cima, poderia rosnar para um grande elefante. Se não estivesse ao meu lado nesse sofá, poderiam bem dizer que é um lobo perdido nas areias de Ipanema.

Penso que sou como Sereia. Estou constantemente tentando me adaptar à alcatéia. Nômade, solitária, em busca de um solo macio para descansar. Ainda não encontrei esse lugar, tampouco levo mapa ou bússola.

Nós também não pedimos para existir, mas o nosso mundo não possui um colo quente e febril para nos acolher nessa jornada.

Pensando bem, nosso encontro não foi por acaso. Sereia veio para ensinar e desajustar. Roer meu dedão do pé exigindo que me levante e brinque. Rosna para algo invisível, mas que enxerga muito bem; algo que não está certo, ou ausente de movimento. Vou correndo ver o que é, e não é nada. Na verdade, é um prenúncio. Algo se aproxima.

Mas não sabemos ainda o que é. Nem eu, nem Sereia.

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