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Nós, as garotas

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Duda Salgado d’Almeidatexto e fotos]

Nós, cariocas, seremos sempre garotas. Mulheres são as parisienses de salto fino, batom e cabelos arranjadamente desarrumados. Jamais seremos promovidas a esse status. Não é nossa culpa: a praia é castradora da couture. Difícil um guarda-roupa funcionar nesse clima. O calor e a umidade empapam qualquer camisa ou cabelo. Sapato fechado, trench-coat, chapéu, a gente compra quando viaja e encosta no armário. Vira totem. Na cidade do quanto menos melhor, fazemos qualquer coisa pra evitar o suadouro. À noite, até viramos mulheres por algumas horas, dentro do ar-condicionado daquele restaurante. Mas, de dia, com dedos e joelhos de fora, somos só garotas.

Nós, garotas, temos entre 24 e 30 anos, com margem de erro para mais e para menos, e algumas perdidas em outras gerações. Essas são tratadas como ídolos ou irmãs mais novas. Nós, garotas, moramos aqui porque queremos, mas podíamos estar em qualquer lugar, e estamos em todos os lugares ao mesmo tempo. Conectadas, cosmopolitas. O computador tem lugar cativo na bolsa. Filhas da televisão, da internet e de Sex And The City, com correções.

Nós, garotas, somos realizadoras. Achamos que livros pesam mais do que halteres. Que a magreza extrema é coisa dos anos 90. Não queremos ser modelos em páginas de revista. Queremos ser escritoras, produtoras, diretoras, advogadas, médicas, estilistas, empresárias.

Nós, garotas, queremos ser gente de verdade. Ainda não chegamos lá. Porém, temos o vislumbre de quem queremos ser. Sonhamos comprido e o caminho é sadomasoquista; faz rir e chorar do açoite. Como espartanas, rimos com sangue entre os olhos. Porque nós, garotas, queremos. Queremos muito.

Nós, garotas, assumimos. Seja o sonho, seja o prato sujo na pia. Não dependemos de almas caridosas, ou ligações telefônicas. Criamos os meios. Não aceitamos ‘não’ como resposta. Não nos amedronta.

Nós, garotas, não temos plano B na vida. Somos plano A, B, C, D e E ao mesmo tempo. Alguns diriam que somos kamikaze. Que fazemos tudo ao contrário. Que estamos fazendo errado. Que não é por aí. Que é difícil. Que não é possível. Não entendem que nós, garotas, queremos transformar: a cidade, o trabalho, onde estamos, onde pisamos. Só vemos possibilidade em tudo porque olhamos apaixonadamente para tudo, porque tudo pode ser. Nós, garotas, não discriminamos. Gostamos do familiar, mas não temos medo do novo, ou do outro. Somos cheias de coragem nas nossas sapatilhas.

Embora pareçamos melindrosas sob nossos vestidinhos, não somos o sexo frágil. Não acreditamos que os homens possam nos salvar, nem queremos. Choramos o necessário.

Nós, garotas, amamos. Por isso, não hesitamos em fazer as malas e sair de casa pra nunca mais voltar. Porque sempre, na esquina, haverá mais garotas com imensas malas vazias e táxis amarelos para nos resgatar.

Porque nós, garotas, acreditamos em nós, garotas, acima de qualquer coisa.

 

*Crônica dedicada a Maria Flor, Catharina Wrede e Paula Gicovate, que são garotas e estão escrevendo, com todo amor, sobre nós, garotas.

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