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Nasceu, viveu, morreu. Simples assim

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Texto: RIOetc

[Duda Salgado d’Almeida]

Me sinto meio oportunista de escrever sobre alguém que faleceu recentemente. Todo mundo é meio coveiro, adora jogar terra em cima do caixão dos outros. Basta um óbito importante e lá vamos nós, tecendo nossos  próprios epitáfios. Epitáfios são um business. Já formam pilhas, engavetados nos caixões de madeira dos macbooks. Vence quem falar/postar/publicar mais rápido. Não, não vou disputar esse mercado. E o mundo não perde uma grande coveira com a minha desistência.

O epitáfio do homem acaba sendo tudo que ele construiu.

Levei minha avó a feira de São Cristovão. Ela é nordestina, mas nunca tinha ido. Às vezes, acho que quanto mais distante, mais distante queremos ficar. Mas a velhice é uma bênção. Torna maleável. Foi no sábado, debaixo de um sol quente como o da caatinga, que ela teve outra primeira vez. Aos 86 anos, depois de deixar o Ceará, ver o marido morrer e os filhos virarem avôs.

A vida é um sopro.

Com sotaque pesado e a leveza de um piscar de olhos, minha avó fala do que já passou e por onde andou. Lições simples sobre a vida. Não tem medo de muita coisa. “Se tiver que cair, cai”, diz sobre o avião. Sua conversa não tem pressa, e tudo vira rápido. Chegamos. “Mas como é grande”, diz ao se deparar com os grandes arcos do Centro de Tradições Nordestinas projetado por Sérgio Bernardes. E caminha, com passo curto e firme, do alto de sua avançada idade. Fica pequenininha ao lado da construção. Passa pela catraca – nunca achei que veria minha avó passar por uma catraca. A cada barraca, um encantamento. Até as coisas sem batismo ela sabia o apelido de infância. Ingredientes, temperos, receitas. Aquele inhame que parece uma cornucópia e não tem no mercado nem na feira. “Faz uns vinte anos que não vejo isso”. Não sabia se me segurava ou desabava de emoção, mas sinto que é pra engolir o choro. Afinal, assim ela ensinou a meu pai, que ensinou a mim. “Mulher não chora”, só faltava dizer assim. Nunca disse. Aliás, dizia pouco. Olhava mais. Do seu jeito sóbrio, absorvi que mulher é bicho forte; deixa o choro pro homem, que se melindra. E que assim seja. Sentamos no restaurante que conheço e sugiro a carne-de-sol que já é familiar. Ela fica na dúvida sobre o suco de graviola, mas acaba pedindo uma água com gelo.  A tranqüilidade com que fala de tudo e o jeito como minimiza sua existência pode ser vista, a olhos materialistas, como um jeito blasé. A esses, digo que é preciso muita calma e paciência para ser sábio e humilde. Porque sem humildade, até o sábio é um tolo. Leveza. Quem tem carrega no traço ou na roupa. A história da minha avó é a história do Brasil. Gente que fez brotar de um campo árido. E com um sorriso plácido, servindo-se de feijão-de-corda, diz: “Aqui pra mim já deu. Estou só esperando, e vou-me logo logo embora”.

A vida é um sopro.

Quem morre instantaneamente vira santo, mas santa mesma é a velhice, o maior sinal de merecimento da própria vida. O garrancho do idoso é traço fundamental do artista. Será sempre bonito aos olhos. Ele, ateu. Ela, tanta crença que permite até que duvidem de seu Deus. Os joelhos já estão endurecidos, mas ela se enverga como a cúpula curvada de uma capela de Niemeyer.

 

Foto: Camila Uchôa

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