Ir para conteúdo

Me engoliram aqueles dias contados

Fotos:
|
Texto: RIOetc

 

[Duda Salgado d’Almeidatexto e fotos]

Há um tempo atrás, descobri um autor por acaso. Estava recém-saída de um emprego num hospital psiquiátrico. Como os olhos sempre buscam similares no mundo, farejei, numa folha daquele jornal desinteressante, uma reportagem póstuma sobre um livro póstumo. O autor escrevia, basicamente, sobre um cara, que era ele e não era, e dividia a paixão pelo ódio de si mesmo. Se não tivesse convivido com eles, acharia uma grande loucura ler os escritos de um autor esquizofrênico. Qual a proximidade que nós, neuróticos normais e saudáveis, teríamos com alguém que acredita que a Gestapo implantou um chip em seus cérebros e monitora todos os seus passos? O que essas pessoas poderiam possivelmente nos dizer sobre a vida?

Esse foi o primeiro choque que sofri dentro daquele lugar asséptico. Era tudo tão bizarramente próximo. Eu, menina saudável. Eles, interditados. Naquele lugar, não havia mentira. Era impossível esconder como eu me sentia – algo tão fácil fora daquelas paredes azulejadas. Não há bom ator o suficiente para enganar um louco. Avidamente pesquisei sobre esse autor, e comprei todos os seus livros. Todos com títulos muito interessantes. O da reportagem chamava-se “Me Roubaram Uns Dias Contados”. Foi como um soco de realidade na minha cara. Porra! Era isso! Era exatamente isso! Descobri que, dentro de mim, também havia um assalto. Um sequestro. Um genocídio. Era o crime perfeito. Deve ser essa maldita cidade. A culpa é sempre dela.

Olho o relógio, faltam quinze minutos. Olho novamente, passaram-se dezessete. O metrô, que promete cinco minutos, gasta oito. Em dez minutos, não consigo tomar o café. Quartos inteiros de hora se perdem entre o táxi e o elevador. Prestadores de serviço assaltam semanas inteiras. E, todo
dia, dias e dias se vão, engolidos. Para onde vai todo esse lucro? Alguém desfruta disso? Nós, não. Essa dívida é descontada em horas de sono, que se esgotam como ações baratas. Enquanto isso, pêlos e cabelos crescem. As unhas machucam os olhos. As tarefas se acumulam. A página dos livros amarela. O pó se agrega nos cantos. A barriga cresce e diminui. Tudo porque te engoliram uns dias contados.

Lá no hospital, era o contrário. O oposto da vida, embora a vida pulsasse. Os dias se congelam numa eterna sala de espera. Não há relógios, nem lembrança do tic-tac deles. Ninguém está só de passagem. Os móveis são grudados no chão. As pessoas usam roupas iguais. Não há tempo, nem
minutos.

Talvez ali seja o oposto do débito do sono. Talvez seja ali onde todos os dias e minutos roubados sejam devolvidos. A alta da bolsa dos dias. Todos lá são ricos. Eu, os médicos, os pacientes. Como o tempo era generoso conosco naquele lugar. Movia-se bem devagar, como uma bailarina apresentando-se para uma plateia de epilépticos.

Então, eu saía porta afora e o tempo voltava a passar.

O tempo passa. Mas ninguém diz como ele passa. O que ele arrasta. Soterra. Muda. O tempo vai nos levar a juventude, os amores, os sonhos. Cada minuto é um minuto a menos. Cada pôr-do-sol é um pôr-do-sol a menos. O tempo nos engole, agora, e agora, e agora. Ninguém diz o que seria de nós se o tempo parasse de passar. Embora, secretamente, já tenhamos desejado que isso acontecesse.
Conheci um monte de gente legal nessa vida… Mas poucos me ensinaram a dançar nesses dias que me restam.

Comentários