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Histórias de mulheres & o mal do tempo

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Duda Salgado d’Almeida]

Eu e o tempo do Rio de Janeiro estamos brigando. De dia o calor açoita, de noite o frio arranha a garganta, nos intervalos há o vento para puxar os cabelos. O tempo castiga, seja de céu claro ou escuro. Acabei ficando doente. Aquele doente que não é muito, mas também não é pouco, e que jáobriga o recolhimento, mas não deixa o corpo pesado o suficiente para suportar ficar recolhido. Agora o tempo está escondido na escuridão da noite, e só restamos nós. Eu, meu livro e uma cama torta. Mais precisamente, “Mulheres que correm com os lobos”, da psicanalista junguiana e contadora de histórias Clarissa PinkolaEstés. Queria lê-lo faz tempo, e curiosamente o encontrei perdido numa estante da casa dos meus pais enquanto separava os livros que quero trazer para a minha casa – finalmente floresceram estantes por aqui também. Além dos livros, separei fotos e alguns móveis muito antigos, desmontando minha infância para que os novos moradores entrem. Talvez a doença não seja por causa do tempo, mas por causa do recolhimento desse tempo passado, que também castiga com memórias e com abandonos.

Em “Mulheres que correm com os lobos”, Dra. Clarissa escreve a importância da intuição feminina, do resgate da nossa mulher selvagem interior e da importância que as histórias têm na produção de insights e resoluções de traumas em nossa mente. As histórias são uma forma de cura, um símbolo que conversa diretamente com o inconsciente. Assim como contos de fada lidos por mães à beira da cama sobre princesas adormecidas, porquinhos preguiçosos e flautistas mágicos acabam por ensinar valiosas lições lúdicas, as histórias “para adultos” causam o mesmo efeito. Dra. Clarissa passou a vida coletando centenas de histórias do mundo inteiro, passadas por boca e ouvidos de diferentes anatomias ao longo de muitos anos, desde tribos indígenas até a Rússia. Sinto o impacto de ler sobre La Loba, a Mulher Esqueleto, a Baba Yaga, o Barba Azul, mas uma história – brasileira, diga-se de passagem – ela não colocou no livro, e é uma das minhas preferidas. Me ensinou muito, e sempre a passo para frente, como um precioso segredo iluminado que deve ser dividido. Ouvi de uma amiga de muitos anos, do qual fui muito próxima. Talvez a amiga mais próxima que já tive em toda a vida. Infelizmente, num período muito confuso na vida de ambas, e logo após ela me contar a história, acabamos brigando.Ficamos anos sem nos falar, embora eu tenha sonhado muitas vezes com ela, inclusive com o momento onde fazíamos as pazes. Mas isso é outra história.

Num traumático carnaval em Minas Gerais, sobre um chão de terra batido e flores de lata, minha amiga me contou sobre a triste história da Marquesa de Araxá. Eram tempos coloniais, e na pequena cidade em Minas Gerais, nasceu a Marquesa, que ainda não possuía o título. Sempre foi muito bonita, talvez pelo cabelo claro e olhos mais claros ainda que não eram comuns em sua época. Ainda menina, perdeu os pais e foi morar com os tios numa pequena fazenda. Um dia, um importante Marquês, que tinha relação estreita com a Coroa Portuguesa, passava pela cidade transportando ouro e se encantou com a menina. Mesmo casado, queria-a a de qualquer jeito. O tio, machista e sem apego, permitiu que ele a levasse em troca de um alto valor.O Marquês, riquíssimo, pagou de bom grado e a recolheu como quem recolhe um bem. Temeroso pelo vigor da moça e por sua beleza, a manteve em cárcere, como sua amante. E assim a Marquesa, levada ainda menina, viveu por muitos anos, até a morte do Marquês. Agora uma mulher de fortuna, com título de Marquesa e finalmente livre, quis voltar à cidade do qual foi arrancada à força. Porém, ao chegar em Araxá, não foi bem recebida. Com a família morta e mais sozinha do que nunca, foi marginalizada pelos outros habitantes. Não bastasse a inveja que causava nas mulheres, também provocava escândalo por ter vivido de forma profana com um homem que supostamente seduziu e pela vida livre que levava após tantos anos de aprisionamento. Tentando amenizar a antipatia, ofereceu em sua casa uma grande festa, e convidou todos os habitantes de Araxá. Os homens compareceram, mas o grupo de mulheres de mais destaque impôs que nenhuma fosse. No meio da festa, um lacaio atravessou o salão bem decorado com uma linda caixa de veludo vermelho, sem remetente. O fato inusitado chamou a atenção de todos. A Marquesa educadamente abriu o presente ali mesmo, como boa anfitriã que era, oferecendo o saciar da curiosidade. Porém, ao abrir a caixa, revelou que seu conteúdo era na verdade fezes de cavalo, num mau-cheiro que empesteou o salão.

No dia seguinte, o grupo de mulheres se encontrou para o café na casa de uma delas para rir da humilhação que haviam prestado à Marquesa. Porém, entre as risadas, um lacaio cruzou o salão com uma caixa nas mãos. Não era tão portentosa quanto a enviada à Marquesa, mas igualmente bonita e inusitada. Temerosa, as mulheres a abriram. Dentro, um maravilhoso buquê de flores, e um bilhete, assinado pela própria Marquesa, que dizia: “A gente dá o que tem”.

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