Ir para conteúdo

E vamos urrar de prazer

Fotos:
|
Texto: RIOetc

[Foto de @grazi_f publicada no Inspiragram]

[Duda Salgado d’Almeida]

Rio de Janeiro, 25 de dezembro de 2012. As ruas de Ipanema estão desertas. Relógios esburacados marcam 58 graus. Os prédios da Visconde de Pirajá entortaram-se com o calor. Estruturas metálicas enroscaram-se como parafusos. Pneus de carros derreteram, e uma grande mancha negra vulcânica escorria por ruas e calçadas. Letreiros de lojas deformaram-se como ginastas velhos e enrugados, e manequins brancos queimavam como grandes velas brancas de cera. Porém, a areia continuava em seu devido lugar. O mar idem. Apenas o que foi feito pela mão do homem pereceu. O teto da igreja na esquina da Joana Angélica foi o primeiro a desabar, e o Cristo Redentor perdeu os braços e quebrou-se da cintura para cima.

Acordo. Meu pijama de marinheiro está ensopado. Olho para o celular. São 10h40 da manhã, temperatura 35 graus Celsius e índice Dow Jones -0,91%. Tudo aparentemente normal no Rio de Janeiro e no mundo. Aparentemente.

Qualquer ser humano com um mínimo de consciência sobre si mesmo sabia, lá no fundo, que o mundo não acabaria no dia 21. Há um monte de teorias secretas e não tão secretas que falam de acontecimentos importantes nessa data, como por exemplo novas configurações astrológicas, mas ainda assim o Apocalipse Maia estava longe de ser uma verdade fatalista. Com essa certeza, busquei ajudar amigos e leitores em pânico. Não sou autoridade universal nem guia espiritual, mas tomei como obrigação tranquilizá-los com carinho e assertivamente dizer que não, não tem apocalipse algum. Mas, verdade seja dita: faltando menos de uma semana para o fatídico dia, fui tomada por uma preocupação, uma inquietação que surpreendeu. Ora, se tenho tanta certeza, porque não estou em paz? O que não ficou bem resolvido? Fui desabafar com as pessoas que me guiam nessa jornada espiritual que abracei em 2012. Após muita conversa, reflexão e meditação, concluí que a inquietação não era uma incerteza, mas um final de ciclo que não poderia passar sem voz e de portas fechadas. A inquietação era o movimento inicial da saída do casulo, o fim do longo inverno, da hibernação. Foi como se o mundo me abrisse a porta da rua e ordenasse, “vá”.

Assim foi o meu dia 21. Marcante, porque fui expulsa de casa. Me preocupei com aqueles que acreditaram intensamente numa bola de fogo ou onda gigante que poria fim à humanidade. Imaginei as milhares de barracas que lotaram os morros verdejantes do Alto Paraíso. Imaginei o desamparo das pessoas que aguardavam esse grande pai que não veio, por mais trágico que isso possa soar. Há algo muito importante a se aprender com essas pessoas, e com toda essa movimentação em prol do fim do mundo.

O homem nasce com a morte dentro de si, embora fuja desse encontro a vida inteira. Todo poeta deve aprender a conviver com ela, pois sem ela não há arte. É ela quem nomeia o orgasmo para os franceses, la petite mort, “a pequena morte”. Os egípcios deixaram belos túmulos piramidais e um precioso manual de instruções para guiar seus mortos quando estes acordassem do outro lado – que prometia ser muito mais legal que o lado dos vivos. Em toda cultura há diversos arquétipos de Deusa Morte, que é tão importante quanto a irmã gêmea vida. Na própria cultura Maia, é a Morte que vira o bebê no útero para que este possa nascer; é ela que guia a parteira e o leite materno que jorra do seio da mãe. Quem nunca passou pela experiência de estar aos prantos, sem ninguém por perto, e ser tomado por uma paz plena, um abraço invisível consolador, que nos enche de força? A Morte é o consolo dos que choram sozinhos.

Embora nós, ocidentais, atribuirmos à Morte um caráter destrutivo, cabe a ela o início de toda renovação e todo o ciclo da vida e das coisas. Ela nasce conosco, nos acompanha e, muitas vezes, nos salva. E o que é o fim do mundo, senão uma grande morte coletiva? Morte de nós mesmos e do mundo como o conhecemos?

Não é de hoje que o homem alardeia, se prepara e anseia pelo fim do mundo. O fim do mundo é, na verdade, a nossa grande reconciliação com essa Deusa Morte que abandonamos nas florestas e nas cavernas escuras dos tempos ancestrais. É a sensação coletiva de que o fim precisa chegar, e não necessariamente o fim da vida, mas o fim de muitas coisas, de modos de se pensar, viver e agir. Esse mundo como o conhecemos precisa morrer para que outro nasça, e com isso o ciclo da vida e do progresso continue e continue até a próxima grande morte.

Um povo que deseja e consome o fim do mundo só pode estar inconscientemente pedindo uma coisa: mudança, profunda e plena. Renovação. Coisas que apenas a Morte traz.

Mas há de se abrir a porta, porque ela vive dentro de nós.

Comentários