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Crônica da obra em movimento

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Duda Salgado d’Almeida]

Essa crônica começa com uma conclusão: ninguém gosta de pré-movimento. Basta as coisas serem removidas de seus devidos lugares para ver o desespero humano. Talvez por isso uma obra seja tão irracionalmente assustadora. Fazê-la implica mover tudo, se mover, mover as coisas para um lugar provisório e desorganizado que é sujo, virtual, perigoso. Um lugar onde as coisas se quebram, somem. Buraco negro e depravado. Assustador.

Esse escarafunchamento de coisas, que ganhou espaço tão importante na infância junto às ondas da praia, é o bicho-papão dos adultos. Toda não-criança possui um reservatório de coisas secretas por trás de cantos, armários, gavetas, portas fechadas,sob o sofá, debaixo da cama. Coisas esquecidas, ou descartadas. Não, eu não quero olhar lá. Esqueci do que há, mas que lashay, lashay. E em repouso ficam essas coisas, e tudo parece tranqüilo. A caravana segue. Até o momento em que a obra pede passagem. Se anuncia a galope, para não ter dúvida. E, como tudo, é preciso coragem. Obra é renovação total de casa e vida. Você sofrerá diretamente todos os efeitos de investigar as fundações de onde você mora e respira.

 

Não estou exagerando no drama.

 

Minha casa está em obras há cerca de 2 meses, e ainda falta – sempre falta. Não sei ao certo, porque obra é assim; as previsões são flexíveis. É um grande work in progress bizarro. Obra tem vida própria; encanamentos estouram, escritos inteligíveis surgem nas paredes e azulejos, idéias se materializam no meio da madrugada e paredes amanhecem amarelo crisântemo. A estante de madeira ganha luzes de led– coisas da modernidade. E o tapete ferido dará lugar a um novo. Descobri que tapetes são grandes bens hereditários.Não comprei um sequer. Todos foram herdados, ou melhor, enviados sem aviso. Talvez os tapetes enrolados sejam os novos telegramas de amor dos pais quando a gente sai de casa.

 

E em meio ao pó, encontramos afetos para nos agarrar. E se não houver um pouquinho de amor em meio a isso tudo, então não vale a pena.

 

Amo e odeio a mão-de-obra. Mas nunca os culpo. Movimentar é deparar-se com obstáculos invisíveis, e ter de resolvê-los. A cada dia, mais obstáculos. Mais defeitos. Mais questões. Sua casa é despida junto com você. Tudo o que não funciona vem à público. O hábito de tirar as calças no meio da noite e largá-las no chão é visto, ainda que de relance, por platéia. Tenta-se esconder, em vão, nas coxias – vãos de portas, aglomerado de cortinas. O barulho do arrastar é insuportável. A casa está coberta de plástico preto, como em óbito. Objetos finados de mim mesma, indigentes, sob uma chuva de cinzas. Não há controle. As portas batem furiosamente com correntes de vento e gente. Estado de alerta constante. É preciso vigiar a roupa que veste, a cara que apresenta;ser hóspede debaixo do próprio teto. Virar outro, conviver com o lado sombra fantasma de si próprio, ver tudo com a frieza de um cirurgião. Lá se vai o coração de madeira, lá se vai o cavalinho de carrossel balinês, lá se vai a garrafa de cristal da vovó. É a sessão prémiere da própria cirurgia.

 

Isto é uma obra.

 

Mas, senhoras, se tem algo que posso lhes dizer é: arrumem seus cabelos, pintem seus rostos com a melhor maquiagem, vistam-se elegantemente e não esqueçam de levantar as barras de suas saias. O tamanho do perigo é proporcional ao tamanho do movimento. Aquele que não cruza oceanos não encontra leviatãs – ou ilhas paradisíacas. Mas o que sei disso? Sou apenas uma escritora numa sala aconchegante com vista para um imenso morro verde sob céu azul. Mas, ainda assim, não fujo das minhas batalhas. Porque em meio ao pó, encontro afeto para me agarrar. E sempre há um pouco de amor em tudo isso, então vale a pena.

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