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Cinzas de segunda

Fotos:
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Texto: Haydée Lima

Minha saudade é dissimulada, paciente. Mas desde que se vê repousar o primeiro grão de confete na calçada, a memória sucumbe à fanfarra que já toma o Rio muito antes de fevereiro chegar. Não me restam fantasias senão a de imaginar-te de novo aqui, subindo Santa ou descendo a Serra para me ver dançar sem dor nenhuma. Não que me lembre desse infinito tempo que se dissolveu há muito e meu peito guarda, sem pudor de afastar as noites dos meus olhos cansados de te ver passar. Mas não passas. Vou teimar as purpurinas no tapete pra provar que ainda apareces, logo na esquina, ao findar o bloco, no último sopro do trompete, este que já não se cala, a me olhar calado, num sorriso que se ouve e faz tremer todos os nervos à flor da pele. Não, eu ei de sair, das mágoas gastas, do sono partido. Às seis vou estar no trilho do bonde, sem você pra atrasar. Não mais perderei as damas por medo de machucar-te. Um moço vai me conduzir o olhar a brincar pelo aterro e talvez eu não durma em casa, pois sou eu quem vai carregar as chaves. Comprei até desespero, pra guardar na gaveta e não inventar de procurar-te na Tiradentes cheia de gente na segunda-feira. E é claro que, de todos os lugares, não vou cair na São Salva para chorar os dias ruins, desse ano que nem passou e já se desfez na folhinha. Vou subir direto para a janela, ver o Cristo curtir a banda e tropeçar o último bêbado, para lembrar de carregar-me sozinha até o sofá, sem ter você pra segurar meu quadril quando eu quase cair, tonta de rir. Vou tentar bolar um plano, um roteiro, algo assim. Gozaria de mim, caso soubesse de tal coisa, posta na geladeira para nunca sair do papel. Eu gostava mesmo era das 03:00, quando seus olhos vermelhos me diziam mais certezas que os seus lábios ocupados em não mais ter razão pra me beijar. Nenhuma das idas ao centro vão superar aquela em que quase toca Chico na quarta-feira de cinzas e eu segurei sua mão. Era tão linda… A paisagem atrás de ti, bem ali naquele ângulo. Eu não mudaria nada, nem uma folha da grama em que a gente deitou pra comer sanduíche e tocar violão. De tanto, entra a Orquestra ou os Tambores e já não sou nem sua. A saudade aparece pra quem quiser ver. Só não aparece você, pra me levar pelo ombro, mostrar o Rio ao contrário, marcar o céu de sons invisíveis e me fazer lembrar de mim. Ah como eu queria um pedacinho da gente pela rua, esquecendo o horário marcado pra dar certo com o que tem. A gente demora pra ver que a vida é simples, que as plumas se acabam em algum pedaço de março e que nem começou o ano mas eu já quero terminar ao seu lado, planejando outro bloco que a gente nem vai, pra ficar sonhando, desenhando a fantasia e a harmonia de outros carnavais.

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