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Casablanca

Fotos:
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Texto: RIOetc

 

[Duda Salgado d’Almeida, texto e fotos]

Ontem assisti a “Casablanca” novamente, mas foi um Casablanca diferente. Rua, tarde, Gávea. Um mal súbito me levou ao chão e provocou a  bondade de estranhos. Fui levada ao famoso hospital de Copacabana, e lá passei o dia, em desconforto. Era tudo branco, branquíssimo, a ponto de fazer doer os olhos e aumentar a dor de cabeça. Não bastasse a dor do corpo, o hospital causa o desconforto da alma. E adoraria que alguém me dissesse o porquê. Não custaria ser mais agradável. Sempre que alguém quer dizer que um ambiente é muito claro, ou muito branco, diz-se “parece um hospital”, apesar de extremamente brancos serem também as galerias de arte, os dias zangados, o mar espelhado. Hospitais parecem dias zangados cujo rosto não se desamarra; aguardam algo ou alguém para deixar-se dissolver e, no entanto, sustentam o clima agonizante e paradíssimo em sua brancura.

Após alguns apalpões e estetoscópios, fui liberada, ou melhor, fugi. Fugi de Casablanca. Com tudo pronto e diagnosticado, fui removida a uma salinha sem relógios ou perspectivas, cuja brancura não suportei. Os olhos ardiam. A cabeça latejava. Ninguém aparecia para me libertar. Uma senhora de 92 anos numa cadeira de rodas gritava que queria ir embora, e o menino ao lado assustava-se e chorava no peito da mãe. Fomos promovidos a “Um Estranho No Ninho”. E, tal qual o índio, pelo bem da minha saúde mental, eu não poderia mais ficar ali. Não, eu não. Saí furtivamente antes que a enfermeira-chefe conseguisse localizar meu nome em sua planilha. Fugi. Esparadrapos, crachá, meio aleijada, uma fome do cão. Pedi um suco de laranja bem amarelo e bebi de um gole só. Fico imaginando o que acontece com pessoas que fogem de hospitais. Será que o nome delas fica lá, anotado? Ou a ficha virá junto com um “OBS: fujão”? Será que ligam pro seu plano de saúde, dizendo que você é louco/tem conduta inaceitável? Ou será ainda que te processam? O que diabos acontece com nós, os fugitivos? Estou aguardando um pronunciamento oficial, depois eu conto.

Como não sou boa de perseguições policiais, me refugiei em casa mesmo. Minha casa não branca. Cor de fruta, cor de floresta, cor de bicho. Minha casa colorida e vazia. O ambiente incrível, de clima divertido. Porém, cinza. Ele não estava, não estaria. E deu o desamparo. Querer alguém que não está e não poderá estar. Que dor, que dor. Volta tudo de novo. Não posso ficar aqui, tenho que fugir. Mas pra onde?
Já é tarde da noite, e aterrisso novamente em Casablanca. A luz, agora baixa, não cega os olhos. Fui servida de deliciosa sopa, e recebi um cobertor quentinho. E amor, afeto. Como um ponto fora da curva, um universo particular, um lugar de sonho e de liberdade. A Casablanca do Arpoador, escondida atrás de janelas que emolduram o mar e as pedras. A Casablanca que ninguém quer fugir, o desejado sepulcro dos homens. Um mar de possibilidade, bem em frente aos olhos. Casablanca, cuja história poderia virar um filme.

Algumas vezes, tudo que vemos é cegueira, mas cabe a nós ajustar o brilho dos olhos.

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