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Aprender a contar

Fotos:
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Texto: RIOetc

 

[Duda Salgado d’Almeidatexto e fotos]

Foi obrigatório. Privação da escrita em prol da escrita. Uma imersão profunda numa grande metrópole de um grande país. Resisti, bravamente. Lutei pela lição preciosa num idioma estrangeiro. Não foi fácil. A mente exausta confundia tudo. Minhas anotações, num híbrido portunglês. Todos os dias, cruzava o Central Park nas primeiras horas da manhã, rumo ao teatro vermelho e preto, laboratório alquímico das letras e acontecimentos. Enquanto Manhattan cresce pra cima, eu ia pra baixo. E pra baixo das escadas, e abaixo do nível do solo. Abaixo de tudo. Abaixo de mim, e dos outros. Abaixo da minha capacidade de respirar. Abaixo do que eu achava que era escrever.

Sim. Aprende-se a contar histórias. Alguns nascem sabendo, mas quem a escolhe – ou é tragado por ela – enquanto ofício, precisa aprender. E muito. Aprender história é uma mistura de Teologia e Astrologia. Possui seus próprios pictogramas. Quadrados, triângulos. Ângulos e preâmbulos. Análises matemáticas sobre as forças do antagonismo. A curva hiperbólica de um personagem. O Arco. As cargas positiva e negativa das emoções das cenas. O incidente que tira o personagem do seu centro e deve acontecer nos primeiros 25% de história contada. Os buracos negros. A esquizofrenia de ser você e todos os personagens ao mesmo tempo. E Deus. Porque você, ainda por cima, é Deus também.

Contar histórias é uma ciência mística. O contador é cientista e adivinho. Ele coloca a orelha na parede do mundo e escuta o que está por baixo e por dentro de nós. E escreve sobre isso, e nos faz sentir invadidos. O contador de histórias é um voyeur de mentes. Velho praticante do teletransporte. Eu só não podia prever que essa imersão me esgotaria as palavras. Quando reencontrava os picos pontudos dos prédios, estava tudo escuro. A última coisa que conseguia fazer era escrever. Não havia nada na minha mente. Nenhuma capacidade na ponta dos dedos. Foi um hiato, uma abertura. Senti toda a potência desse ofício. A real responsabilidade. Tudo que teria de abrir mão para atingir o pico solitário do arranha-céu. O cano gelado da carabina que me acompanharia todas as vezes que sentaria para escrever. Finalmente, se fez clara e nítida toda a paisagem que me acompanharia nessa vida de letras e histórias.

O corpo só encontrou a alma ontem. Não havia mais frio. Era calor com céu azul inteiriço, sem interferências de cimento e aço. Um cheiro de sal capaz de levantar qualquer ser inanimado. As notícias ruins, acompanhei pela internet. As boas, esqueceram de contar. Os ovos que o passarinho chocava na varanda finalmente nasceram. Minha sobrinha fez mais um mês de vida e já sabe onde fica o pé. A amiga de infância casou. Os gays já podem casar no Rio de Janeiro. Dá pra usar casaco no fim de tarde.

Talvez seja essa a premissa de todo contador de histórias. Contar o que a gente esquece de contar. Contar o que a gente já não vê por costume. Construir pequenos arranha-céus de memória. Erigir monumentos de passado, presente e futuro. E, por conta disso, carregar as pedras que os outros esqueceram pelo caminho.

 

 

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