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Texto: RIOetc

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Foto: Tiago Petrik

 

[Duda Salgado d’Almeida]

 

Quinta-feira, 21h. Avenida Presidente Vargas. Um imenso corredor pulsante cor de amarelo se aproxima. Garotas de cara pintada seguram uma faixa que atravessa as pistas. Precisamos abrir espaço. Grito para que os meninos se afastem, senão seremos atropelados. Estamos absorvidos pela filmagem. A câmera tem o poder de direcionar um mundo inteiro para uma pequena tela  quadrada. Nos dissipamos. Quando olho para trás, não vejo ninguém. Tento fazer uma ligação num celular oco. De repente, massas de pessoas correm em todas as direções. Clarões de fumaça estouram. Estou sozinha numa praça de guerra. Um mascarado passa por mim e grita “Corre! É o choque!”. Obedeço, sem saber o que esperar. Cinco helicópteros emergem do viaduto e passam raspando por nossas cabeças. Alguns garotos, cara limpa, sobem em postes e pedem “Calma! Calma!”. Baixando as mãos, gritam “Não corram! É pior!”.

Então você pára. É preciso parar, pelos outros. Um milhão de pessoas se atropelando dentre cavalos cegos e metralhadoras podem causar uma tragédia. O único jeito é segurar o pânico e manter a calma. Então você o faz, mesmo sabendo que a poucos metros, um caveirão dispara balas de borracha em manifestantes sentados no chão com cartazes pedindo paz. O país respira no mesmo ritmo. Seria insanidade ignorar os protestos. Vivemos a manifestação mesmo longe dela. Estamos todos desbaratinados pelo cheiro do gás. Consumimos o assunto até o osso. Lemos tudo, assistimos tudo. Estamos compulsivos por notícias, até notícias de mentira. Fizemos novos amigos e rompemos com amizades em cima do muro. Fomos obrigados a nos posicionar. Pela segunda vez, fui ao Centro documentar o movimento, em particular algo que me emociona muito: a presença das mulheres.  Acredito que muito do que acontece agora nas ruas é um grito feminino. Saí com o intuito não apenas de apoiar, mas de registrar essas garotas. Que gritam e botam a cara. Isso não quer dizer mostrar o rosto. A HBO acaba de lançar o documentário “Pussy Riot: A Punk Prayer”, sobre as anárquicas coloridas encapuzadas que invadiram a principal igreja ortodoxa russa. Paralelo a isso, aqui mesmo no Brasil, além do habitual machismo do dia a dia e dos dados crescentes de violência contra a mulher, há o complexo Estatuto do Nascituro, uma bomba de efeito moral da Tropa de Choque Evangélica nos nossos úteros. Seja para onde aponta a rosa dos ventos, o meu assunto – em meio a essa multidão de palavras diversas que englobam Dilma, Cabral, Paes, 20 centavos, corrupção, PEC 37 e muitas outras – continua sendo, acima de tudo, as mulheres do Brasil.

Está sendo muito difícil que o governo ancião, entre outros anciãos que dominam outras áreas – audiovisual,  publicidade, jornalismo, empresas como um todo -, compreendam o que acontece agora. São como pais confusos com filhos adolescentes. Para eles, somos uma massa disforme de vontades. A verdade é que somos algo jamais visto antes, que não se encaixa nos moldes de um mundo velho. E como tudo que acontece no agora, é difícil nos definir.

Somos uma massa. Jovem, conectada. Sem perspectiva de futuro no país como está. Temos força, potência. Ao contrário do que a polícia e a mídia tentam fazer, não somos animais. Nem vândalos. Não sabemos de onde essas pessoas vêm ou o que passaram. Afinal, vivemos num país sem educação. A verdade é que ninguém fica igual após ser perseguido pela polícia. Só quem estava lá sabe o que passamos. E só quem vive esse momento sabe o que se abrirá após essa janela.
Agora, meu maior sentimento é o medo. Porém, o medo é prejudicial. O medo nos faz fugir, recuar. Não podemos sentir medo nesse momento. Precisamos de uma nova estratégia. Uma cartada com inteligência. Não é mais apenas da polícia que precisamos ter medo, mas dos aproveitadores. E eles estão aí, nos rodeando como os urubus velhos. Eles podem não saber quem somos, mas agora, mais do que nunca, nós precisamos ter certeza.

 

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