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A virose do carnaval

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Duda Salgado d’Almeida, texto e fotos]

Não tenho memória organizada pra afirmar quantos carnavais passei fora da cidade. Não foram muitos. Aquele em Tiradentes não conta direito, a cabeça estava em outro lugar. Houve um ou outro em Petrópolis. Talvez esse seja o primeiro carnaval de corpo e alma fora do Rio, sem resquício de confusão ou desafio das leis da física.

A família inteira migrou para Salvador. Uma pequena fração da juventude do Rio de Janeiro estaria no quarto ao lado. A casa estaria repleta de adolescentes acesos. Hormônios. Brigas, gritos. Confusão. Eu só queria silêncio, paz, farinha d’àgua, dendê e descanso. Minha paz baiana já saiu do Rio vencida.

CORTA PARA esta carioca pulando ao som do Psirico em cima do trio elétrico na Barra-Ondina.

Em minha defesa, ele gritou para tirar o pé do chão. Só obedeci.

O baiano fala da “virose do carnaval”. É alguma coisa que dá, geralmente ao acordar. A definição oscila, os sintomas não são muito bem definidos. Não é ressaca nem gripe, mas tem espirro, dor de garganta, dor de estômago, uma quentura assim, uma estafa, um suadouro. Difícil de explicar. Uma combinação de coisas ruins e flutuantes, que desaparece no início da noite. E o efeito colateral é deixar o indivíduo pulando a noite inteira pelas ruas da cidade.

Apesar de nunca ter ouvido o carioca falar dessa virose, não somos imunes. A casa inteira pegou.

CORTA PARA Eu na pipoca, dançando a coreografia da Claudia Leitte – a música oficial do carnaval, emocionada com a Daniela Mercury, odiando o Psy, cantando as músicas do Aviões do Forró, me sentindo a Ivete Sangalo.

O carnaval carioca não tem pipoca; com o calor que faz, viraríamos milho carbonizado. O folião do Rio é como uma bolinha de ping-pong, só para de quicar quando cai no mar, pode ser mergulho de fim de tarde ou início de dia. Enquanto o carnaval do Rio é tudo junto e misturado, o baiano é segregado. A música é diferente. O ar é diferente. O folião baiano não se fantasia, veste uniforme, abadá. Nem uma orelhinha de bicho, maquiagem, máscara, anteninha. Purpurinas e paetês ficaram nas esquinas do Rio. Curioso ver um carnaval sem nenhum fru-fru. Mas, seja onde for, carnaval é potência. Goste ou não, todo mundo ama e desama. Complicado não se entregar, nem um pouquinho. Cada um vive à sua maneira.

E daí que eu era a única pessoa fantasiada no carnaval da Bahia?

Talvez fosse uma mutação da “virose”, mas não pude deixar a Índia Potira no armário, aguardando o ano que vem.

*Hoje sopro velas das Crônicas Cariocas, que fazem 1 aninho de vida! Parabéns a todos nós! Obrigada a todos que acompanham e compartilham! :-)

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