Ir para conteúdo

A vida em fotografias

Fotos:
|
Texto: RIOetc

Foto: Anna Clara Carvalho

[Duda Salgado D’Almeida]

Desde criancinha vejo a vida em quadros. Coisa de quem vive em cidade cenário. Coisa de quem nasce inventador de coisas e causos. Mesmo que fossem números, tinham cara, cor, asas, sapatos. A matéria no caderno nunca foi só azul, explodiam carimbos e carinhas. Era o samba do crioulo doido. Importante era se entender no meio desses mapas afestalhados.

Lembro da primeira câmera, aquela que era só minha. Nos anos 90 não tinha celular esperto e pai não dava máquina fotográfica pra criança. No máximo emprestava, durante as férias de família, dizendo pra tomar cuidado porque filme era chato de trocar, tinha que ir na loja da Kodak, etc e tal. As vezes, de bom humor, gastava um dinheirinho e dava aquela descartável, que vinha acompanhada de um sentimento de birra, porque não era máquina de verdade. O jeito era viver de filar máquina dos meus pais, sempre seguindo suas instruções de uso e moderação. Nem quando fui fazer intercâmbio, com quatorze anos, fiquei de posse de uma. Todos os meus coleguinhas levaram suas próprias máquinas, mas os meus disseram – e me fizeram acreditar, porque aí mora o singelo maldito dos pais – que não precisava, que não tinha isso de levar máquina, e que em todo caso, dava pra comprar a de plástico. Foi a primeira privação do registro; o nascimento da dor de não poder gravar uma coisa importante, e junto com ele a noção de que as coisas precisam ser registradas, gravadas, marcadas. E pra tapar o buraco, comecei a colecionar papéis, bilhetes, rótulos, mapas e tudo de impresso que fosse parar na minha mão. Também repeti o padrão de pedir a câmera emprestado, só que dessa vez foi escambo, a amiga brasileira tirava umas fotos pra mim em troca do filme que comprava pra ela, e mais uns diazinhos pra copiar o negativo. Acabou que no meu álbum do intercâmbio aparece mais ela do que eu, mas tudo bem. Brotou um sentimento novo de desapego, de ver que outras coisas importam mais, e experiência também dá pra escrever, que é também gravar, registrar. De repente era essa a lição do pai que não quis emprestar a câmera pro filho.

Um ano depois, aos quinze, veio a primeira câmera (aposto que meu pai ficou com pena do álbum do intercâmbio). Era novidade no Brasil. A tal câmera digital, que jogava as fotos pro computador. Em formato de gota, cinza chumbo. Mal dava pra ver o que aparecia dentro do visor. Cada clique era uma surpresa. Câmera pra sujeito cego. Tinha uns dois megapixels. E ainda era webcam. Passei a levá-la para todos os lugares, especialmente os shows de rock underground que freqüentava, em inferninhos de Botafogo e Copacabana. Fotografava as bandas dos amigos, naquele esquema surpresa. Em mais um dos atributos mágicos daquela câmera, que demorava para captar os movimentos, os registros daqueles guitarristas e vocalistas espremidos que convulsionavam nos palquinhos minúsculos saíam tremidos, fantasmagóricos. Era totalmente
diferente daqueles flashes congelantes que deixava todo mundo horrível. Talvez o nosso complexo de feiúra tenha vindo desses registros horrorosos. Talvez por isso a gente se fechasse nesses lugares escuros e fumegantes com nossas guitarras vagabundas. Ouso dizer que foi a primeira vez que alguém ali viu um retrato que representasse tudo que a gente sentia e achava da gente mesmo. Bem, as fotos começaram a fazer sucesso, e eu passei a fotografar todo mundo.Logo depois entrou a época dos fotologs, e as minhas fotos seguiram bombando. Foi quando muita gente começou a entrar nos meus blogs, e a ler o que eu escrevia. As imagens chamaram atenção para as palavras, e eu também comecei a levá-las mais a sério. As máquinas digitais foram evoluindo, se separaram das webcams, foram ficando cada vez mais baratas e acessíveis enquanto os megapixels foram subindo e subindo e subindo. Então algo aconteceu, e não sei direito como aconteceu. Simplesmente parei de tirar fotos. Parei de gostar de fotos, de pensar a vida em fotos. Fiquei encapsulada num progresso transparente, sem registros imagéticos. As pessoas começaram a ficar mais e mais fotográficas, e eu menos e menos. Muitos seguiram nessa área. Meu amigo da época de fotos fantasmagóricas de bandas de rock underground, por exemplo, fundou o site mais legal de fotos de pessoas do país. E eu me fechando no casulo até chegar ao ponto de não ter mais câmera nenhuma, nem no celular. Bom, isso mudou desde semana passada. Minha mãe ligou, no seu característico jeito incisivo, e disse “Estou passando aí na sua portaria, vou deixar uma sacola pra você”. Aceitei de bom grado. Afinal, mães jogam coisas o tempo inteiro nas casas dos filhos. Sem qualquer expectativa, sentei-me à mesa de jantar e abri o pequeno papelote pardo. Era um iphone reluzente. Senhoras e senhoras, meu primeiro smartphone. Liguei-o e ele fez questão de se apresentar e me proporcionar um tour. Depois me largou para que eu o desbravasse sozinho. Por dois dias, foi o que fiz. Centralizei contas de e-mail, baixei o jogo dos passarinhos enfurecidos, passei de fase, anotei lembretes, marquei horários, e sincronizei, sincronizei, sincronizei. Agora, o mais especial e importante foi quando descobri sua câmera tímida, mas potente. Melhor ainda, com filtros acoplados. E possibilidade de compartilhamento. Comecei a clicar, timidamente. Estou fora de forma. Os enquadramentos ainda ficam meio estranhos. Os assuntos são primários, voltam-se muito aos pés, mãos e comida. Me sinto um bebê da fotografia, que acabou de ser parido, e só enxerga o que está a sua frente. E com o caminhar dos dias, o mundo vai se desdobrando em imagens. E eu não acredito como vivi as turras com a fotografia nesses últimos anos.

Se o pai que nega a máquina ao filho ensina o desapego, a mãe que dá a máquina ao filho ensina o desassossego. Porque, para descansar, há o espaço entre um clique e outro. Existir requer visão & registro.

Comentários