Ir para conteúdo

Um ano de saudade

Fotos:
|
Texto: Haydée Lima

Na rua saio cedo, certeira. O primeiro dia a gente segue a agenda. Não são dois ou três que se perdem a correr na calçada. Já avisto na ruela que termina ali, os companheiros de folia desconhecidos da vida. O metrô já acena, num vagão ou outro, o trompete que anseia a hora de encontrar a banda. Metros e metros da avenida fechada se enchem de gente como se transbordassem ao contrário. As meninas riem no canto da escadaria que parece se mover sozinha como um formigueiro. Ao clarear o corredor, já avisto os ambulantes, os sons da rua cada vez mais altos. De repente eu sou a rua. Nos apressamos a subir a Benjamin Constant contando os degraus ou os tropeços. Já na terceira esquina, parece infinita a caminhada porém o batuque cada vez mais próximo não deixa a alma ceder. E sem arrependimentos pelo esforço, na esquina última, vejo o lampejo dos estandartes no meio do bloco inteiro que vem descendo o Largo do Guimarães. Ah, quanta cor… Meu Céu na Terra, parece uma eternidade esperar você chegar todo ano! No alto de quem vem na frente, Poti brilha como ontem, enquanto soavam as Carmelitas “o meu amor eu encontrei nessa ladeira…”. Tanta gente que nem dura esperar. Sigo a banda e no meio da multidão, me liberto de qualquer domínio, me deixo levar, não que haja outra escolha possível. Subo o muro para ver toda a gente, e quanta gente! E lá no meio um grito a me chamar: mamãe se destaca no meio da multidão traçando uma diagonal meio torta ao meu encontro. Mal posso acreditar, como ninguém acredita, que se possa ser encontrado em pleno carnaval. Aí recordo que apenas esses encontros não combinados são possíveis de acontecer como em todos os outros anos se fizeram. Rimos, uns vem cumprimentar, outros se espantam com a juventude dela “impossível! É sua mãe?” e não podemos ficar nem cinco minutos que a banda já se foi. Tchau gente, nos vemos por aí hoje ainda, quem sabe? Dali não nos vimos mais. É um risco que se sabe. E depois de muito seguir o bloco, “damos um pulo no Flamengo?”. Vai ser bom almoçar. Macarronada, o de sempre. 2 horas de sono e o uber chega para o próximo destino. “4 aí e 5 aqui?”: isso! “Moço, cabe mais um?”, chegamos cedo, mas era pra pegar a música boa. “Amanhã tem o que?” e a lista de blocos passa automaticamente pela cabeça num looping, até que pesco: “Boi Tolo, único bloco possível!” não dá para discordar, mas alguém suspeita “ano passado não foi furada? Vocês foram parar naquele túnel e…”. Ah, mas esse ano vai ser bom, não tem erro, tem que pegar o boi azul ou o vermelho, tô com os contatos todos. E amanhã foi bom mesmo. Ô dia cheio. É nessa de ir atrás de bloco que não para nem descansa que eu me pego a pensar por que eu amo tanto a rua. A rua, pura e simples, pode parecer um pouco banal, ordinária, sem tanta valia aos olhos de quem só passa por ela. Mas para quem vive a rua como eu, independente do carnaval ou não, sabe os segredos que ela mantém, no calor do seu asfalto, nas gafes de suas esquinas, na miudeza de seus detalhes. Quando pequena, fui apaixonada por bancos de praça. Esses mesmo, compridos e um pouco desconfortáveis. A poesia que eles guardavam, para mim, era algo tão nítido que não se podia passar batido. Mais tarde ouvi algo sobre os retratantes de bancos nas artes sempre estarem conectados ao tempo, como observadores, como um próprio personagem imóvel participante da história de todos que já sentaram, deitaram, recostaram ali. Sempre fui uma romântica, admito. E meu afeto é público, nunca escondi. Talvez por isso a rua, e sobretudo o carnaval, me traduzam um tempo, esse tempo próprio e unívoco que só o carnaval tem, diferente desses em que vivemos fora dele, de amar detalhes invisíveis ou mesmo insanamente denotados da vida que passa desfilando devagar. Na rua uma troca de olhares é um espetáculo à parte. Por mais que muitos pensem na superficialidade das relações que se dão nas calçadas amontoadas de gente nesse período, eu gosto de pensar em todos os amores que eclodem a cada instante. Amores por desconhecidos, por quem sempre esteve ao seu lado, amores por ambulantes, pelo trompetista que foi embora mais cedo, pela pernalta que lá das alturas jogou um beijo que eu nem sei se foi pra mim, pela sonoridade do cortejo, pelo cortejo, pela rua, por toda a cidade… Vejo passar ao meu lado um casal de namorados, que apesar de toda a muvuca, parecem viver um carnaval só deles. Vejo corpos reluzentes (pelo suor e pela purpurina que os banha) que se amam e amam outros corpos numa ebulição de liberdade que nenhum outro lugar proporciona, senão a rua. Essa rua ocupada por cores, formas, origens ilimitadas. Essa rua que ferve, neste ano decadente, desse desgoverno coxo, a substância máxima das massas que a afirmam sua. De seus galantes primatas e das mulheres que conquistam o direito de lhes dizer não. Essa rua politizada, consciente do que a mantém pública, única, nossa. Apressamos o passo, a prima mais velha chegou e disse que perdemos o bloco, aquele é outro. Não dá tempo de esperar o resto. Mais tarde a gente conversa quando você não estiver tão tonto. Corremos. Corremos como se nossa vida dependesse de achar aquela banda. A Uruguaiana na luz da manhã já estava longe agora… Abriu-se o céu e de repente já estávamos em Botafogo. “Nossa, foi rápido né?”, não amiga, já são quase quatro da tarde… E quando parecia acabar, o bloco para o trânsito. Os carros businam inutilmente na boca do túnel que o cortejo toma pra si. Vejo homens feito meninos correndo, pulando, gritando para os amigos. Como é maravilhosa essa sensação de ver corpos ocupando um trajeto tão incomum ao andar à pé. Como é incrível a visão de uma multidão emergindo desse lugar, quase como companheiros de uma longa jornada podendo enfim enxergar a luz. E todos berram e se abraçam celebrando essa chegada. A chuva vem, mas ninguém sai da rua. Até o Leme a folia aguenta. Quando a água já passa dos joelhos é hora de ir pra casa. E o bom de chegar em casa, casa de primos, amigos, gente nossa, é que no mesmo teto, cada um chega e sai no seu horário. “Qual a boa de hoje?” ela arregala o olho “você não está vendo o dilúvio?” ah mas vai passar… E passou. Mais três dias de sol. Segunda-feira tem Vem Cá Minha Flor “vamos?”. Sei lá, acho que o Trombetas Cósmicas tem mais a ver com a gente. Tá bom, a gente se encontra mais tarde no Centro. “Volta pra casa, amanhã tem aquele cheio de gente bonita!”. O metrô não lota esse ano, não entendo o por quê. Vou de teimosia ao Sargento, mas só lá vejo que já foi o tempo. “Alô, você tá no Centro?” Corro pra Carioca, em quinze minutos eles devem sair, não posso perder! Rápido! Desço as escadas no mesmo minuto em que os três pulam pra fora do vagão. Nem acredito. Só pode ser coisa do carnaval! Ah, que saudade que eu estava… Dia de andar em outro grupo é também ler a rua de outro modo. Nem todos andam devagar, nem todos fazem corrente quando a coisa aperta. Pertencer a um grupo é seguir seus próprios códigos, sinais e normas de segurança. Mas a mão que segurei na segunda era aquela. Roubou-me beijos diferentes dos outros, nos lembravam a aurora da juventude de carnavais já muito distantes. O bloco também repete a vida. Tão mais confortável estar com quem já conhecemos, com quem temos nossos laços, afetos mútuos. Mas eles também se acabam num espaço curto, e já era noite quando me perdi dessa fantasia e voltei pra casa. O sono leva embora o peso de ontem e terça às 9h já estavam todos de pé carregando suas penas, maiôs, tules e organzas para o “último” dia do que chamamos de carnaval oficialmente declarado nos calendários nacionais. Sabíamos que ainda havia muito por vir, mas a expectativa mansa da manhã em que todos se despedem simbolicamente dessa rua transformada, não poderia causar menos barulho no sexto andar da Joaquim Nabuco, tão longe de onde estaríamos momentos depois. “Mas que horas sai a Orquestra?” só à tarde, mas vamos cedo para curtir a concentração. “Pegou o protetor solar?” Pra quê? Para o sol, o sol escaldante que fazia ali quando chegamos. Mas tudo bem, último dia tem que brincar sem medo de ser feliz. E por falar em brincar, apesar do carnaval ser a festa da carne, que exala sexualidade por todos os seus poros febris, o que vejo são milhares de adultos de todas as idades deixando transparecer sua alma infantil. Crianças: rindo, pulando, caindo, correndo, dançando, brincando. Que possibilidade maravilhosa temos de deixar de lado, pelo menos uma vez ao ano, a máscara sóbria da maturidade e sermos leves para gargalhar sem limites, abraçar e beijar os nossos sem formalidades, quebrar os tabus que nos assolam todos os dias. E no meio dessa alegria eufórica, eu, sentada no meio fio, enquanto tiro uns minutos para observá-los, vejo um rosto talvez conhecido ali a alguns metros. Me aproximo sem muita certeza. “Oi, a gente se conhece?” acho que sim. Rimos. “Você é o roteirista né? Aham. São poucos minutos dessa troca, o beijo no meio, tão íntimo quanto alguém que eu realmente conhecesse a fundo. “Estou procurando um amigo, ele já devia ter chegado”. Entendo. Nos despedimos ali. Nem eu nem ele queríamos nos privar de um encontro melhor num futuro próximo. “Você tem meu número?” e não é que tenho? Na hora de voltar no escuro, os pés nem mais obedecem os comandos mentais. No caminho para casa, sentados no chão do metrô, junto de todo o vagão que sorri cansado de 5 dias de folia, as histórias vividas já parecem distantes o bastante para serem contadas em narrativas épicas para os amigos em volta. Não há noite melhor que essa. Noite de comemorar memórias, contabilizar os micos, rir de tudo, eternizar os laços e renovar os planos para o próximo ano. Para mim, Carnaval sempre foi o verdadeiro ano novo. Porque não há esperança melhor que essa de que em 365 dias nos vestiremos novamente de alegria para desfilar nossa liberdade pela rua. E que o Brasil ainda será Brasil, tão colorido, diverso e plural como só ele. E isso, lugar nenhum do mundo irá presenciar igual.

Comentários