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Uma história de azulejos

Fotos:
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Texto: RIOetc

Fotos: Tiago Petrik

[Mariana Ramalho Zappa]

Laura Taves conta a sua história através de azulejos. A sua história e a história de muita gente, aliás.

Para começar, as das mulheres que a arquiteta formou artesãs para que criassem painéis nas comunidades onde viviam. Ao todo, foram 8 comunidades a receber painéis construídos (e mantidos) por elas mesmas. Ao final desses processos, essas artesãs já tinham novas visões de mundo, e queriam mais, queriam continuar o processo de aprendizado. Por isso, em 2003 a Azulejaria nasceu, das mãos delicadas da Laura e de mais três mulheres, artesãs da zona portuária. Por onde tem passado, seu trabalho deixa um pedaço de história queimado em azulejo, levando cultura para quem tem o potencial mas não tem a ferramenta.

Um exemplo mais puro de um desses milagres aconteceu enquanto fotografávamos o mural que a artista criou em Campinho, numa estação da futura Transcarioca. Um homem que trabalha no local se aproximou e perguntou a Laura: “Essa obra é sua?”. Diante da afirmativa, em seguida passou alguns minutos comentando, emocionado, como o painel o enchia de alegria, como o fazia se sentir representado, pela referência ao Jongo da Serrinha. O painel, de 700 metros quadrados e 30 mil azulejos, nasceu de um pedido da prefeitura para que a Azulejaria criasse um mural relacionado aos temas “Copa” e “Olimpíadas”. “Mas em que esses temas iriam afetar a vida das pessoas? Qual é a relação com o local?”, foram as perguntas da Laura, que só aceitou criar o painel se a temática estivesse ligada à forte cultura do samba da região, que é repleta de escolas de samba. Todas representadas nas cores do painel, junto com a padronagem típica das paredes dos mais tradicionais botecos do subúrbio carioca.

“É tudo uma questão de respeito ao local”, conta Laura, que no início das obras recebia olhares desconfiados dos operários. A partir do momento em que eles viam o mural tomando forma, os azulejos dançando e toda a ligação com a música, eles se apropriaram também do projeto, como se eles se reconhecessem nos “pisos na parede”. O que remete à história de que o azulejo é construído coletivamente, é um conjunto de 1 + 1 +1 que só faz sentido quando está pronto.

E é justamente esse sentimento de coletividade que transporta a azulejaria para outras intervenções urbanas e sociais. As Redes de Desenvolvimento da Maré, um projeto contínuo da Azulejaria, e a a Escola Agora, projeto realizado na escola Tasso da Silveira, onde ocorreu a chacina de Realengo, são alguns bons exemplos disso. Exemplos de como o respeito pela comunidade e pela raiz histórica e cultural, quando inseridos numa manifestação artística, podem transformar a vida de muita gente. Nas palavras da própria Laura, “o poder da arte é mobilizar o outro, e a partir do momento em que ela está na rua ou num espaço publico, ela não é minha, ela é do mundo”.

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