Rio de Janeiro, 09|02|17

sobre as capas

[Tiago Petrik, editor do RIOetc].

Escolher a capa de um livro é a decisão mais difícil de todo o processo de edição.

Precisa resumir/representar o conteúdo, ser atraente e, no nosso caso específico do RIOetc, tentamos sempre colocar uma mensagem oculta.

No primeiro livro, a escolha foi pela Valentina Seabra. Ela tava saindo da praia quando foi abordada por nós, cheia de areia. A camiseta que usava era quase surrada, e tinha uma estampa com “New York” escrito. Achamos que um livro sobre moda de rua carioca (mas não só) ficaria bem representado assim. Pra completar, reparem no sorriso magnético da Valentina. Engraçado é que a gente implicava com poses com a mão na cintura, achava isso artificial. Até ela descomplicar. Não resistimos.

Pro volume 2, mais uma cena praiana. A Raquel Wymann foi clicada num festival muito legal que acontece na orla uma vez por ano, o Dia da Rua (nome tão bom quanto a proposta do evento). Ela estava de bike, que é a melhor forma de acompanhar o maior número de shows. Além de uma simpatia, ela é linda, e a bike também. E é suíça, mas uma das mais cariocas que conheço. Achamos que uma gringa tão bem adaptada à paisagem representaria a mensagem de encurtamento de distâncias, resumo do texto de abertura do livro. Ainda por cima estava de pochete, acessório que muita gente implica até hoje, depois de ter feito tanto sucesso nos anos 90. Mas o trabalho do RIOetc, entre outros, é o de identificar tendências. Há cinco anos, usar pochete era execrado por 9 entre 10. Hoje já tem até marca especializada em pochete.

Pra falar do volume 3, vou contar uma história antes.

A Juliana Rocha, que é a editora de imagem do RIOetc, de vez em quando chega no escritório esbaforida, apressada, querendo contar algo urgente. Por exemplo, aconteceu uma vez quando ela, ainda suada da pedalada, adentrou a sala e me disse: “Acabei de fotografar nossa nova estagiária“. Eu nem lembro se a gente realmente estava procurando uma, mas de fato a Ana Clara era a nossa cara. Ainda por cima tava com um girassol na mão quando a Ju a abordou pra fotografar. “Passa lá”, a Ju disse. E no dia seguinte a Clarinha começou com a gente.

Com a Luna foi bem parecido. A Ju falou: “Acabei de fotografar a mulher mais linda do mundo“, ou algo assim, que me pareceu exagerado. Aí fui ver as fotos, e tive que concordar. Quando a conheci pessoalmente (fiz fotos e um perfil), fiquei encantado com aquela caxiense que rodou o mundo do antes de voltar pra cá. Falava de “empoderamento feminino”, um termo que ganhava força. Mais tarde, ela me contou sobre o projeto de descoberta de sua tribo africana, através da análise do DNA. Dos escravos foi roubada até mesmo a ancestralidade, que esse projeto devolveu. A Luna descobriu que era da etnia Yorubá, da Nigéria. Passou a se envolver ainda mais com a causa negra, que ela charmosamente já defendia envolta em turbantes.

Por tudo isso, a Luna foi escolhida para ser nossa capa: é linda, é engajada sem deixar de ser terna, fala de questões relevantes com doçura, é conectada mas sem esquecer as raízes.

Não sem algum constrangimento de minha parte pelo tempo que isso demorou, ela é a primeira negra a ser capa de um livro nosso.

E na contracapa tem outra, com os cabelos cor-de-rosa. A lombada e a orelha são verde escuras. Ficou um conjunto mangueirense que me agradou visualmente.

E acho que resume bem o livro: é uma festa visual e diversa. Tenho certeza de que vocês vão concordar quando folhearem.

O lançamento é daqui a uma semana (16/2), na Casa Ipanema, a partir das 18h30. Nos vemos lá!