Rio de Janeiro, 20|05|12

[Duda Salgado d'Almeida]

Há tantas formas… As vezes parece haver só uma, a correta ou incorreta, onde tudo que passa longe é duvidoso. Definitivamente, há formas ruins de se viver uma vida; repetindo comportamentos sem reflexão ou vivendo de forma programada, sem tempo, sem escape, sem caminho alternativo. Todo o resto é transitório, aprendizado. Uma vida inteira de formas.

Tenho pensado muito nisso nas últimas semanas.

Um aspecto místico da vida dos leitores vorazes é quando um livro cai na sua mão para coroar justamente esses momentos, um livro que parece ter sido colocado nas tuas mãos e ordenado, “Lê”. Interessante como, em alguns momentos dessa tal vida, precisamos dessas ordenações místicas. Devemos permitir esses momentos. Coisas lindas podem sair deles.

Enquanto eu rolava como uma pedra pela minha casa, me foi dito “Pega esse livro e lê”. E o livro era Sidarta, de Hermann Hesse.
Então eu, um projeto de mulher – estou recém redescoberta adolescente, mas isso é papo para outra crônica – debaixo desse céu azul paradisíaco da minha cidade, em meio a ondas de calor e chicotes de chuva, me dediquei a leitura agradável desta clássica versão do autor alemão para o Buda quando jovem.

Tudo começa quando Sidarta, um jovenzito carismático e bonito, decide abandonar a nobre vida brâmane para se juntar aos samanas contra a vontade de seu pai. Isso implica largar a família e as roupas e viver na floresta como eremita num intenso processo de privação – viver sem comida e ego e meditar até que todo o ser se dividisse entre todos os seres dessa terra, e ele virasse o nada. Assim o aprendeu e fez por longo tempo até começar a questionar seus mestres anciãos; estes o fazem há tantas décadas mas jamais chegaram ao Nirvana, não teria algo errado aí? Com esse pensamento rebela-se, e resolve trilhar seu próprio caminho. O que faz uns mais especiais que outros? Não seriam todos mestres em seu próprio ofício? Não teriam coisas a ensinar os comerciantes e as prostitutas? Em termos de ofício, Sidarta não sabia fiar nem carregar peso, apenas meditar, esperar e jejuar, apenas isso e tudo isso, embora seja de pouca serventia no mundo material. Mas, ao deixar a floresta, foi no mundo material que Sidarta penetrou, e como todo homem, por mais elevado que seja, contaminou-se, e mergulhou fundo nas delícias turvas do Samsara.

Samsara é a ignorância, a crença no mundo temporal, viver sob o hino do dinheiro; é o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos, o ciclo de transmigração da alma, a vida de aprendizado a que somos submetidos entre o nascer e o morrer. Samsara é o que está detrás das nossas portas e dentro das nossas casas.

O céu azul que vejo da minha varanda é Samsara. Impossível escapar dele. Há de meditar para minimizar o sofrimento que é viver no Samsara. Essa é uma valiosa lição numa cidade onde os preços sobem a cada dia. O mundo inteiro está pobre.

Quando as lixeiras de casa estão sempre cheias é sinal de que o consumo é em excesso. A roda do dinheiro é autofágica, faz girar a si mesma e apenas engole a si mesma – mesmo que tenhamos sido educados a pensar que somos engolidos por ela. Nós não somos parte dessa cadeia alimentar.

Faz pouco tempo troquei meus ídolos e totens das paredes. Tive que abrir mão do conforto contra minha vontade. Quando o mundo está pobre, empobrecemos. A meu próprio modo, pratico a mendicância; ganho o suficiente para comer e garantir o espaço físico da casa. Reduzi ao máximo minhas necessidades, e agora pratico o jejum. Não vivo na Índia, muito menos em 500 a.C., tenho plena consciência de onde estou. Rio de Janeiro, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos, aquela letra velha que todo mundo já sabe cantar e que não muda. Yes, nós temos bananas, Yes, nós temos novos prédios, Yes, nós temos novos negócios, mas Yes, nós somos Samsara. Não estou dizendo que a minha forma é a melhor forma. É apenas uma outra forma, uma tentativa.

Até para observar o lindo céu azul de Samsara precisamos sair de nossos bunkers.