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Gabi Monteiro

Fotos: Wendy Andrade
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Texto: RIOetc

@gabimonteiroreau

“O racismo é tão entranhado na nossa sociedade como um ato normal de beber água. A sociedade brasileira foi construída a partir dessa estrutura social que acontece desde que os Europeus chegaram. Tá tudo tão enraizado que faz com que a gente aceite diversas questões que eu mesma vou entendendo ao longo do tempo o quanto é absurdo as diversas situações que vivo. Por exemplo, agora eu estou aqui mandando esse áudio pra você, eu moro no Chapéu Mangueira – na parte de cima da casa, onde tem uma varanda – e eu tô superperto dos prédios da rua. Fico pensando, como pode ter essas disparidade social tão grande? Eu posso morar em uma favela  – e olha que ainda é uma favela na Zona Sul, menos “ruim” do que uma favela na Baixada Fluminense – mas como pode uma pessoa que está a 1 minuto de mim, ter condições e direitos totalmente diferente dos que os meus? Essa discrepância só se dá por conta dessa construção que aconteceu o Brasil, essa desigualdade, essa questão de você sempre ter que se sobrepor ao outro. Isso perpassa pela questão racial, tanto que a maioria das pessoas que moram em favela e periferia são pessoas negras. Os dados mostram que é a maioria da população que morre. Quando eu olho pra boca de fumo, que é do lado da minha casa, a maioria é negra. É muito fácil a gente olhar por essa perspectiva como, “ah, eles não querem nada!”. Não faz sentido que todas as pessoas que moram em uma favela não queiram nada! E quando eu quero, quando eu tento trabalhar como designer – minha formação – é muito difícil. A profissão de designer de moda não é pra uma pessoa pobre. Como eu faço pra eu ter uma marca, uma estrutura? Tudo isso perpassa pela questão racial. Quando eu passei por essa agonia na Universidade, de sofrer racismo, eu comecei a tentar entender o porquê das professoras estarem incomodadas com o volume do meu cabelo, ainda mais eu sendo a única mina preta na sala. Primeiro eu fiquei com ódio, raiva delas, depois eu resolvi falar disso – falei publicamente – e aí foi um momento que eu também comecei a encontrar pessoas que pensavam como eu, mas foi um momento que quis investigar e pensar sobre isso. Comecei a pesquisar sobre a vinda dos negros africanos pro Brasil, coisas que não sabemos que e vão além da imagem do negro no tronco ou do negro não estar na Casa Grande, falado nos livros de história. Até hoje a gente vê em novelas na Globo negros em posição de submissão. Por que não retratam um negro bem sucedido?

A minha pesquisa é sobre a ocupação da Zona Portuária no século XIX. Descobri, por exemplo, que o primeiro negro engenheiro do Brasil foi o André Rebouças – que dá nome ao túnel – ele era um cara muito amigo de Dom Pedro e construiu na Zona Portuária aquele Galpão da Cidadania, em frente ao Cais do Valongo. O Cais é um lugar ícone – apesar de terem havido diversos cais que recebiam os navios negreiros -, mas ele é um lugar que virou ícone pois foi redescoberto depois das obras das Olimpíadas. Tem uma estimativa de terem vindo pro Brasil 5 milhões de escravos africanos, muitos deles chegaram pelo Rio de Janeiro, também na Bahia. É importante falar que essa ocupação da Zona Portuária se deu porque os navios negreiros chegavam pela Praça XV e ali era o Centro, o coração do Rio. De 300, 100 chegavam praticamente mortos da viagem: eram 3 meses de navio à pão e água. Não tem como um ser humano resistir a essas condições. Eles chegavam praticamente mortos e ninguém queria ver. Assim que eles chegavam, havia o descarte desses corpos: os ossos eram quebrados e queimados e depois descartados em vala. Trocaram então essa chegada para o Cais do Valongo, mais afastado do Centro, onde ninguém veria. E todo um comercio ligado à venda de escravos foi o que fez ocupar aquela região inicialmente. Esses escravos que chegavam por ali eram vendidos no ponto que hoje é o Jardim Suspenso – hoje é um lugar lindo mas era horrível antes do Pereira Passos no início do século XX. De lá, saiam negros até para os Estados Unidos (existe este registro pois o Rio de Janeiro era um lugar que realmente distribuía por toda a América negros africanos escravizados). Essa pesquisa que surgiu de momentos de angústia com o racismo que sofri na Universidade resultou na minha coleção Vale Longo. Se chama “Vale Longo” pois o Cais do Valongo estava localizado entre 2 montanhas: por isso é um vale. “Longo” pois a rua onde hoje se chama Camerino ligava o Cais do Valongo até a Praça Tiradentes, Centro do Rio. Eu fiz a coleção a partir da análise dessas histórias, todas a partir da análise de imagens feitas pelo Debret e outros artistas que vieram com a caravana francesa. Fiz a análise das roupas dos africanos escravizados e dos europeus colonizadores. Foi esse mix a partir desses desenhos e das texturas que eu desenvolvi a minha coleção. As fotos e o fashionfilm foi feito todo por lá: escolhi 3 locações na Zona Portuária que podem contar uma história absurda que ninguém sabe pra fazer as fotos e fazer o vídeo. A minha experiência com o racismo, na verdade, me move pra eu criar. Criar principalmente coisas que contestem esse sistema engessado que é a moda. Até hoje a gente vive isso. O acesso dos negros nesse espaço é nenhum. A equipe que eu montei pra registrar a coleção, tanto os modelos, fotógrafa, filmmaker, produção, diretora de expressão corporal, são negras. Quis que fossem mulheres negras ou gays, bichas pretas. São pessoas que ficam limitadas a serem modelos mas a gente pode ocupar outros espaços. A coleção é uma contestação não apenas com o conceito mas também às pessoas envolvidas para fazer ela acontecer.”

#sobreserpreto

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