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‘A compra é um voto’

Fotos: Tiago Petrik
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Texto: RIOetc

Gabi Mazepa, criadora do Re-Roupa, esteve aqui conosco semana passada, lançando uma coleção em parceria com a Duas. Aproveitamos o encontro para tentar entender um pouco mais da sua proposta e ajudar a amplificar seu discurso. Fiquem com ela, vale a pena:

“O Re-Roupa vem da ideia de ressignificar, reaproveitar, repensar roupa, mais do que moda. Por isso é um projeto que só existe a partir do momento que a roupa já existe e chega até nós. Existe tanto como marca própria quanto como projeto educacional, e grande parte do meu tempo invisto divulgando isso.

Como funcionam as parcerias? As marcas trazem o que têm de resíduos, a gente está falando de uma indústria que produz muito, foi assim que a gente se constituiu como indústria – a novidade estar sempre acontecendo -, daí as sobras. E não existe uma lógica de produção para esses resíduos. Ou se joga fora da maneira errada ou é queimado. Então algumas marcas procuram a gente para  que a gente use essa matéria-prima usando a criatividade como ferramenta, para transformar em produto de novo.

Foi o que aconteceu com a Duas. Elas juntaram retalhos que sobraram de várias coleções, e essas sobras viraram novas peças, únicas, com estampas que se misturam.

Minha formação é em Artes. Primeiro comecei com Arquitetura, que cursei por três anos. Aí fiz um intercâmbio na França e lá eu mudei para Artes. Nem teria, naquela época, uma outra mais adequada. Meu trabalho final era apresentar um projeto com tecido. Minha mãe teve uma confecção quando eu era pequena, mas eu nunca tinha pensado em trabalhar com Moda. E aí lá, nessa oportunidade, comecei e nunca mais parei, transformando o que o Re-Roupa é hoje. Nunca pensei em criar uma coleção, e sim entendendo no que as matérias-primas poderiam se formar.

É bem complexa a produção dessas peças, então temos que formar uma mão de obra. Há seis meses me mudei para São Paulo. Tive que buscar ajuda, porque aqui no Rio, nos últimos quatro anos, eu já tinha essa rede para me ajudar a confeccionar essas peças. E um dos parceiros importantes que encontrei lá foi o Instituto Alinha, que tem como objetivo regularizar a situação de costureiros e oficinas de costura da cidade. Grande parte desses costureiros são imigrantes. No nosso caso, 100% – chilenos e bolivianos -, que chegam lá já tendo uma bagagem de costura, mas não sabem falar a língua, não têm CNPJ, não têm condições legais de trabalho. Então o Alinha ajuda eles a estarem OK para começar a trabalhar com marcas que queiram pagar um preço justo. Pela situação de vulnerabilidade em que chegam, eles poderiam mais facilmente cair numa situação de trabalho escravo. Você chega a São Paulo, uma cidade difícil, com uma concorrência muito grande, e isso acontece. Então é muito importante esse trabalho do Alinha.

Lá se vão 12 anos que eu só faço isso, em diversas frentes. Batizado como Re-Roupa, há cinco anos.

Com base no que tenho visto, o caminho é otimista. Mas é complicado falar da sociedade brasileira como um todo, já que o país é absurdamente desigual, e em que o consumo é uma ferramenta ainda muito importante de empoderamento e pertencimento. Então esse papo de “não compre mais roupas, use apenas 10 roupas”, ele é muito legal, mas é apenas para uma pequena bolha da sociedade. Sou supercrítica em relação a isso porque se só falarmos dentro da bolha não vamos evoluir como sociedade, se é isso que a gente quer. As pessoas precisam usar marcas às vezes, e gastam R$ 900 num tênis porque precisam que se sintam parte de algo. Minha opinião é que esse assunto é complexo. Mas dentro desse recorte que a gente tá, houve uma evolução enorme nos últimos tempos, sim, com grandes marcas se preocupando com projetos que dialoguem mais com outras iniciativas além do consumo, tipo reaproveitamento, incentivo a grupos artesanais, questões de troca, de produzir menos, mais espaçadamente, de inclusão na cadeia produtiva.

Acho muito legal quando uma pequena marca vem me procurar, como a Duas. Pequena comparada com grandes redes. As meninas têm que jogar em muitas posições para a marca existir. A equipe é pequena. Esse trabalho de formiguinha é valoroso, são pessoas que querem fazer a diferença.  Porque a tentação de ir numa fast fashion e comprar é enorme. Tem mais opção de grade, de cor, de preço.

Mas a compra é um voto. Onde é que você quer botar o seu dinheiro? É uma decisão política, de descentralizar o dinheiro. E aí como vamos falar: “Não compre mais!”? E o pequeno, vai viver como? Não se trata de não comprar, mas de quem comprar.”

Para comprar da Duas – e também sua coleção com o Re-Roupa – você tem a opção do site das marcas. E aqui no Rio, nossa loja. Vai ser um prazer contar mais dessa história. Largo dos Leões, 81 C – Humaitá.

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