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Na nossa pele

Fotos: Wendy Andrade
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Texto: RIOetc

[Wendy Andrade]

Quando Lázaro lançou o livro me bateu uma ansiedade na leitura antes nunca sentida. Uma sensação parecida de quando criança e estava próximo de ganhar presente. Mas ao mesmo tempo um medo súbito me tomava, descobrir pode ser descontruir, e eu não queria perder o Lázaro que tinha na minha mente. Mas ele passou com louvor pela linha tênue de trazer sua história e provocar reflexões sem fazer uma autobiografia. Com simplicidade, ele faz um convite ao aprendizado e a perceber o que é ser negro.

O propósito do livro é trazer reflexão. E trouxe. Separei algumas partes do livro onde as minhas experiências e referências se confundem com as do autor, uma forma honesta de fazer jus ao título. A pele do Lázaro é a minha pele, é a pele de milhões. Agora eu que faço o convite: vamos conversar?

LUGAR

Lázaro começa falando da sua criação em Paty, distrito de São Francisco de Conde na Bahia, numa ilha que fica 72 quilômetros de Salvador. Cresceu com as suas tias te chamando de lindo e ali não tinha ninguém para dizer o contrário, a maioria eram negros. As religiões chegaram bem cedo, aos treze anos conheceu o Candomblé e a Igreja Evangélica; desta segunda desistiu rapidamente por não conseguir ouvir Jesus, devido à gritaria.

Minha criação também foi com as minhas tias potencializando a minha beleza com palavras e afeto, mas ao sair do portão de casa eu tinha que lidar com as afirmações contrárias que infelizmente faziam mais sentido. A minha descoberta com as religiões também foi cedo; minhas tias em Jacarepaguá frequentavam a macumba. Eu tinha medo, mas achava bonitas as roupas. Depois minha mãe se converteu para igreja evangélica e começou a me obrigar a estar ali. O certo e o errado eram cada vez mais latentes. Teve um dia que um copo caiu em casa e ela disse que poderia ser o diabo, e a culpa era minha, já que eu era o único ali que não tinha aceitado Jesus.

REFERÊNCIA

Ainda criança, Lázaro queria ser alguém importante e elegeu um super-herói, e assim escolheu Jairzinho, o cantor. Mas só depois de grande entendeu a escolha: Jairzinho era um dos poucos negros no televisivo infantil. Na escola, Lázaro aprendeu pouco sobre a cultura negra. Foi descobrir Zumbi na escola com 17 anos, mas de forma muito superficial.

Eu nunca fui muito fã de desenhos nem de videogame, meu super-herói era o Batman, embora a maioria dos meus amigos gostassem do Super Homem. Também nunca tinha entendido essa escolha. Embora branco, Batman se caracteriza pela roupa preta, e isso me representava. Sobre negros, referência de luta e resistência, não aprendi nada em nenhuma instituição. Tudo que vi foi por vontade própria.

COMEÇOU O JOGO

Lázaro já estava no teatro e parou para tirar dinheiro. Quando saiu do banco, os policiais o abordaram. Com educação, ele questionou o motivo da abordagem. Os policias, mesmo se irritando com a audácia dele, foram embora dizendo que não estavam sendo racistas.

Já fui abordado diversas vezes pela polícia. Mas um caso recente de dois meninos negros no ônibus que me fez pensar bastante o quão danoso é o racismo em todos os lugares. Vou deixar o link desse relato aqui.

VAMOS

Preocupado com mercado de trabalho, Lázaro questiona os motivos que levam os jovens negros a morrerem mais cedo e as poucas chances de estudar. Além do branqueamento da sociedade brasileira que tornou o passado europeu história, e o passado africano, etnografia. Lázaro questiona também a ausência de negros nas produções televisivas, e os passos curtos que estamos dando na ocupação desses espaços.

Discurso que conversa com a ideia da antropóloga Carolina Delgado, muitas marcas erram na comunicação por não terem negros na sua cadeia de criação. E mesmo com esse assunto sendo tão discutido, existem marcas cometendo erros grotescos com estampa de roupa com imagem de escravos. Fica a reflexão: se tivesse negro no processo de criação dessa marca, eles teriam feito essa estampa?

Muniz Sodré diz no livro que o negro foi inserido na publicidade por uma questão de reconhecimento mercadológico, e não pelo reconhecimento de estatuto e cidadania e igualdade. Hoje vejo muitas marcas utilizando modelo negro. Entendeu o singular? Isso é só para dizer para o público que não estão ignorando ou excluindo o negro, mas no geral, 95% dos seus modelos continuam sendo brancos. Isso é o que mais preocupa o Lázaro, a experiência de exceção que só confirma a regra.

Lázaro faz menção ao vídeo onde crianças são expostas à experiência de escolher entre uma boneca preta e uma boneca branca. É triste, mas importante, assista.

Não pense que isso é só com crianças. Uma amiga publicou no grupo de Whatsapp uma foto com quatro bebês e imediatamente disse: “O de olho azul é meu”. O bebê pretinho ninguém quis.

PODER

Lázaro é um admirador da geração tombamento. Jovens negras que usam a estética, a autoestima e a liberdade no dizer e no agir para se empoderar. Cabelos crespos ou cacheados passaram a ser símbolos de resistência, luta e identificação porque esses jovens decidiram ocupar espaço, se enxergar bonitos.

Vejo muitos negros mais velhos criticando a geração tombamento, e numa roda de conversa, alguém falou que a geração tombamento não sabia nada de moda. Meu amigo Rafael Joaquim prontamente rebateu: quando a moda branca apareceu, não foi exigido dos jovens brancos o saber. Já com negros é imposto uma sabedoria descabida. E para mim é muito claro: não é porque eles usam das roupas e danças para se firmarem que sabem menos. As pessoas que mais me ensinaram são do tombamento.

SOLIDÃO

Lázaro cita Claudete Alves, autora do livro “Virou negra?”. Ela diz que a proteção do homem negro é resultado do fato de que sua bagagem histórica e cultural o levou a negar sua identidade. Então uma das perspectivas de ascensão do homem negro é se relacionar com a mulher branca. Para fomentar essa afirmação ela apresenta pesquisas, como depois da era Pelé o relacionamento de homens negros com mulher branca cresceu. Um dos motivos foi o papel da mídia, que criou um referencial do que seria afetivo e sexualmente desejável. Até mesmo a pornografia tem influência, já que também o jovem que consome só enxerga mulheres brancas. Ele também conta brevemente que Taís também foi vítima da solidão quando jovem: era a amiga, o cupido, mas nunca a namorada.

Quando fotografei a minha amiga Marcella Cabral para meu projeto Retrato Negro, ela disse que só ficava com homens negros. Naquele momento achei absurdo. Mas hoje vejo a importância do relacionamento afrocentrado. Quando estava escrevendo esse texto, meu amigo Pedro Aurélio me ligou e perguntou quando iríamos no Cacique de Ramos. E daí eu fiquei refletindo a experiência que tive naquele espaço com pessoas brancas e com pessoas negras. Foram totalmente diferentes.

Continuo acreditando que o amor não tem cor, mas o relacionamento entre negros, o assunto, a causa, os desejos se equivalem. Existe um entendimento que nenhuma pessoa branca vai conseguir corresponder a um negro.

O AFETO É POTÊNCIA

Essa para mim, é a melhor parte do livro.

Durante uma viagem com amigos brancos, tudo estava ótimo, litoral, bebida, piscina, até que Lázaro parou e lembrou da história do homem branco de trinta e poucos anos que certa vez o abordou numa saída de supermercado. Ele havia percebido como a cor da pele dele e a classe social à qual ele pertencia eram um patrimônio. Lázaro explodiu. Descontroladamente, começou a falar com seus amigos brancos que a cor da pele deles é patrimônio, nascer com a pele clara e o olho claro dá aos brancos um patrimônio que nós, negros, não temos.

Isso não exclui o valor do negro ou o valor que podemos ter, mas há um mundo que diz que não valemos tanto assim. E vai além, pede aos amigos brancos o saber sobre o que significa esse patrimônio, que precisam saber mais sobre nós. E cobra o compromisso deles em assumir, juntos, um caminho. Até porque somos iguais, mas também não somos iguais.

Quando iniciei o Retrato Negro ganhei alguns mentores. Pessoas que são referências para mim e me ajudam nas questões que aparecem na minha cabeça. Um deles afirmou que eu me afastaria de amigos brancos. Achei aquilo um absurdo, ignorei prontamente.

Mas depois de um tempo aconteceu.

Minhas amigas brancas sempre falavam de homens, até que um dia perguntei se alguém já tinha ficado com negro ou até mesmo achado algum negro interessante ao ponto de sentir desejo. Uma pensou e citou um rapaz negro que ela ficou – que também era exceção, morador do Leblon e estudante da PUC. No dia seguinte ela conversou com uma amiga e disse que chegaram à conclusão que eu estava “viajando” com esse assunto. Foi quando indaguei se amiga que ela conversou também era branca e classe média igual a ela. Sim.

Isso entra em outro assunto que é a negação do branco em dialogar com o negro. Uma outra amiga, branca, no calor do momento depois da história da menina do turbante que suspostamente foi agredida, fez um post no Facebook pedindo a opinião dos seus amigos sobre o assunto. Nos comentários só pessoas brancas comentaram, comentários descabidos e muitos responderam com memes. E ela mesmo me encontrando na faculdade, mesmo tendo meu número, mesmo se considerando minha amiga, não se dispôs a dialogar.

Vejo meus amigos brancos se declarando potência. Uns trabalham com a família porque estavam se sentindo explorados no estágio, outros viajam muito mas nunca fizeram com seu próprio dinheiro, outros quando conseguem estágio e têm que trabalhar mais de seis horas, pedem demissão e rapidamente conseguem outro. Todos eles ficam chateados quando o assunto são seus privilégios.

Uma vez fui convidado para falar sobre racismo e comunicação numa faculdade particular. Comecei a minha fala afirmando que todos naquela sala eram racistas. Numa sala com quarenta alunos brancos. Uns começaram a me agredir verbalmente, outros levantaram, e poucos ficaram para discutir o motivo da minha fala.

Lázaro termina a história do fim de semana assim:

“Por que quando tocamos nesse assunto, já na segunda frase vejo suas expressões me dizendo claramente que estão desesperados, buscando uma frase feita para encerrar o assunto?”

Insistentemente Lázaro pediu que seus amigos lessem o livro “O olho mais azul”. O branco não experimenta essa sensação, e tem gente que só por ter tais características é considerada de menor valor. E isso molda o ser humano. O olhar molda o ser humano. A frase que guiava toda a minha transformação durante o Retrato Negro foi o “o tornar-se negro”. Já no livro, Lázaro diz que todo negro passa por esse processo, porém o branco não “torna-se branco”, porque ele já nasce sendo. Tudo é feito e representado para ele, não precisa se descobrir.

Outro exemplo desse privilégio foi o caso de estupro cometido pelo José Mayer. Embora minhas amigas brancas se considerem feministas, a discussão não era se ele merecia ser preso ou demitido, pelo contrário; a discursão era se ele era vítima da sociedade ou não. Relativizando um ato de estupro, em prol de um ator que está no topo da cadeia de privilégio, que tem poder e acesso a todas informações. Fiquei pensando: e se fosse o Lázaro Ramos? E se fosse um negro na Baixada Fluminense? E se fosse o Felipe Silva? Você não sabe quem é Felipe Silva? Leia aqui, ele vai se apresentar pra você.

INÍCIO

Sim, todas essas questões só estão começando a partir do momento que você começou a pensar nelas só agora. Fico feliz que você tenha chegado aqui. Não deixe de comprar o livro. Ele é sincero, revelador e propõe uma mudança de conduta. Nos convoca a ser mais vigilantes e atentos ao outro. Compre. Por favor. E leia quantas vezes for necessário.

Termino com a fala do Emicida que inicia o livro do Lázaro:

“Todos nós somos educados de uma maneira muito torta acerca do outro. O que a gente pode fazer é admitir que estamos em obras e ir corrigindo isso.”

#sobreserpreto

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