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Galeria Urbana: Nosso museu a céu aberto

Fotos:
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Texto: RIOetc

Foto: Tiago Petrik

[Rafael Doria]

“1, 2, 3…Estátua!” Depois da contagem regressiva e da ordem, as crianças param na posição em que estão. Mais que isso, incorporam feições sérias e taciturnas. Afinal, quando pensamos nessa forma de arte, quase sempre nos vem à cabeça a imagem de figuras solenes, em representações realistas. Muitas vezes heróicas, até, e  exageradamente épicas – por isso mesmo, distantes da nossa realidade. Na maior parte das vezes, é isso o que vemos pelas cidades de uma maneira geral.

Foto: Anna Clara Carvalho

De alguns anos para cá, iniciou-se um movimento de quebra desse padrão, homenageando personalidades do nosso tempo de uma forma mais descontraída. Esses personagens, que não são reis ou marechais, nem desfilam sobre seus cavalos igualmente pomposos, ganharam a admiração do povo justamente por seu carisma coloquial. Seria injusto que as estátuas de Chacrinha, Dorival Caymmi, Zózimo Barroso do Amaral, Otto Lara Rezende e Carlos Drummond de Andrade – só pra citar os que ilustram a coluna de hoje – não tivessem um ar mais leve nos seu contornos e expressões. Além desses exemplos aqui retratados, podemos citar no mesmo patamar as representações feitas de Noel Rosa, em Vila Isabel, ou de Pixinguinha, no Centro, entre outras.

Foto: Tiago Petrik

Foto: Tiago Petrik

Chacrinha não poderia ter sido representado de outra maneira pelo artista plástico Ique (que se notabilizou pelas caricaturas nos jornais): tem uma mão perto do nariz e na outra segura um bacalhau. Sua localização é totalmente adequada: a poucos metros de onde existia o Teatro Fênix, no Jardim Botânico, onde o Velho Guerreiro montava seu “Cassino” aos sábados.

Drummond tem um banco só seu na Praia de Copacabana, que virou atração turística (e seus óculos viraram fetiche para marginais – já lhe roubaram o acessório pelo menos uma dúzia de vezes). O poeta fica de costas para o mar, observando o frenético footing no calçadão. Em seu banco, um verso: “No mar estava escrita uma cidade”. E o banco basta. A inserção dessas figuras em locais de passagem, ao invés de colocá-las em pedestais, deixa essas figuras queridas pelo carioca no mesmo plano do cidadão, diminuindo a distância e valorizando a visualização dos detalhes, como a textura do material utilizado.

Foto: Tiago Petrik

O caso de Zózimo é o oposto do poeta: o jornalista parece estar chegando de uma jornada de trabalho. Tem o paletó sobre o ombro direito e observa a enseada de Leblon e Ipanema, deixando de lado sua máquina de escrever.

Foto: Anna Clara Carvalho

E mais perto de Drummond está o baiano Caymmi. Ele carrega seu violão, numa cena que eterniza em bronze não apenas o compositor, mas também uma linda foto de Evandro Teixeira.

Foto: Tiago Petrik

Foto: Tiago Petrik

No caso do escritor Otto Lara Resende, também no Jardim Botânico, a intenção do artista Joás Pereira dos Passos era permitir que o visitante se sentasse no escritório do acadêmico. Uma cadeira está lá para permitir essa intimidade com o mineiro, que lê um livro apoiado em sua escrivaninha, onde está um telefone.

Recentemente, iniciou-se uma polêmica sobre a proliferação dessas homenagens. Há quem considere que elas poluem o ambiente ou que não se adequam à paisagem. Qualquer que seja a sua impressão sobre o assunto, o fato é que o Rio se tornou um grande museu a céu aberto, com centenas de obras dignas de atenção. Há pouco tempo, Alex Belchior criou o portal Monumentos do Rio, que cataloga todas essas obras. A intenção do “galerista” é realizar um censo dos monumentos, verificando o estado de conservação de cada um. Esse catálogo vai gerar um relatório, que será apresentado ao poder público. Depois de iniciativas como esta, agora só falta um city tour que percorra esse museu espalhado pelas ruas. Até obra com a participação do grande Auguste Rodin nós temos – é a estátua de Dom Pedro I na Praça Tiradentes, a primeira a ser inaugurada no Rio. O autor é Louis Rochet, mas Rodin foi seu assistente na confecção. Que tal criar uma estátua do autor do “Pensador” para colocar diante de sua obra?

 
Esse post é mais uma gentileza que a Gafisa oferece pra você.

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