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RIOetc entrevista Mel Bivar

Fotos: Tiago Petrik
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Texto: Tiago Petrik

Em 2011, depois de 16 anos no mercado corporativo – mais precisamente, em empresas da área de petróleo, gás e mineração –, Mel Bivar decidiu mudar o rumo de sua vida. Formada em Comunicação Social e Gestão de Negócios Sustentáveis, trabalhava na área de responsabilidade social dessas empresas. E, embora tivesse até orgulho de alguns trabalhos que realizou, deu-se conta de que sua capacidade de minimizar as dores causadas eram infinitamente menores do que os impactos gerados. “Percebi que o que eu conseguia realizar era como se eu colocasse um band-aid numa fratura exposta, então dei uma grande virada interna”, conta. “Minha questão é recriar realidades, encontrar novos modelos”, diz.

Em 2011, Mel entrou em contato com o Cidades em Transição – o movimento Transition Towns nasceu na Inglaterra, em 2006, com o objetivo de criar modelos sustentáveis para as cidades, menos dependentes do petróleo. “O que eles trazem é um olhar potencial de como a gente consegue ressignificar a nossa vida no mundo, olhando de outro jeito para as dimensões que regem a nossa vida. A dimensão social, a ecológica, a econômica e o que eles chamam de visão de mundo, aquilo que é intangível, como a espiritualidade”, explica.  Neste fim de semana (15 e 16), na Casa Anitcha, no Grajaú, e no próximo (22 e 23/7), na Social Contemporâneo, no Largo do Machado, Mel facilita o treinamento em companhia de Cláudia Valadares e Renata Lara. “O estudo do Transition estimula que se olhe de modo crítico e cuidadoso de onde vem nossa comida, os produtos que a gente compra, o que são esses produtos, e ter responsabilidade e consciência sobre o que consumimos. Que cadeias são essas e o que estamos sustentando. Transição é começar a construir novas formas de olhar nossa sociedade, para chegarmos num lugar verdadeiramente sustentável”, diz.

A prática já gerou alguns frutos no Rio: as hortas comunitárias do Cosme Velho e Laranjeiras e a ciclovia do bairro (esta em atuação com outras entidades). “Foi uma batalha de cinco anos, e ela não tem nem um ano de vida. Diminuir espaço de carro ainda é uma questão! As hortas ainda são laboratórios, para ajudar a ressignificar os espaços urbanos. A do Cosme Velho era um terreno baldio, com lixo. Quando o movimento começou, teve gente do prédio ao lado que foi contra! E horta é vida! Então, como incluir? Muitas vezes o opositor do projeto é o mais importante, porque ele vai te dar o subsídio para dizer o que falta no projeto para fazer com que esse opositor também se sinta contemplado. Esse aprendizado ainda estamos desenvolvendo como comunidade”, avalia Mel. Segundo ela, “a grande virada em termos de consciência acontece quando a gente consegue atingir entre 10 e 13% do público relacionado a um aspecto, qualquer que seja. No caso de Totnes, a cidade onde nasceu o Transition Towns, todas as pessoas estão envolvidas na transição. Mas são apenas 15 mil habitantes. A cidade tem até moeda própria, o que revoluciona as relações econômicas. Mantém a riqueza local no local”.

Embora ainda pequeno, se comparado ao padrão europeu, Mel sente que já estão sendo dados passos de transformação no Rio. “A indústria criativa reside aí. Estamos numa esfera de fortalecer os vínculos em rede. O modelo de competição é arcaico, existem muitos padrões para quebrar”, avalia. No Grajaú, o movimento tem como resultado a Casa Anitcha, onde será o treinamento e nasceu a feira do Desapegue-se, há 9 anos, que acontece uma vez por mês. “A casa é colaborativa, tudo que acontece lá é colaborativo”, diz Mel.

Coerentemente com os conceitos que prega, Mel diz que, para participar do treinamento, há outras formas de colaborar além do pagamento da inscrição. Podem ser feitas permutas de serviços e atividades com contribuição parcial. “Encontrar pessoas que tenham real interesse em participar e disseminar os frutos dessa jornada é nosso maior interesse. Para quem realmente quer participar e não tem possibilidades financeiras, pensaremos em alternativas que viabililizem, de forma sustentável, sua participação”, diz. Mais informações aqui (Grajaú) e aqui (Largo do Machado).

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