[Foto: Instagram do @rioetc]
Eu estava tirando as sementes dos tomates cereja.
Tenho que falar agora? Não consigo pensar com as mãos cheias de sementes. Mas como assim ir pra Paris? Quando?
Daqui a 6 dias. Tenho que ir lá pra resolver umas coisas. Preciso de ajuda. Você vem comigo?
Não tenho dinheiro e não saio de casa há dias. A semana começa com a terrível notícia de que meu cachorro morreu e me internei na cozinha preparando todo o tipo de comidas, o que me obriga a lavar todas as panelas umas três vezes por dia. Esse é meu jeito de superar. Agora recebo um convite irrecusável para ir pra Paris, sem precisar gastar um tostão. É necessário mesmo pensar?
O céu é metade azul metade cinza e duas nuvens absolutamente idênticas pairam uma em cima da outra. Preciso de uma fatia do rocambole de morango da padaria ali do lado.
Vou no passo rápido até o balcão. Na primeira garfada, como quase a fatia inteira. Uma senhorinha me olha abismada. Com a boca cheia de morango e chantilly, reparo nas grades cinzentas que contrastam com o balcão iluminado e colorido da padaria. Ali jazia o Chaika, ícone da infância e dos primeiros meses da nova casa e da nova vida. Por causa daquelas luzes, aprendi o que era neon e que as batatas fritas podiam ser mais divertidas. Quando doente, já morando em Ipanema, vinha a canja de galinha trazida na bandeja por um funcionário uniformizado. O Chaika era quase uma segunda mãe. Os garçons tem a idade de vovôs afetuosos. Os nomes dos doces fazem você rir, e se você se confunde e inventa um outro nome, eles ainda assim sabem exatamente de qual você tá falando. A rabanada existe o ano inteiro. Oh, Chaika. Palco de inúmeros cafés-da-manhã de domingo e laricas de madrugada. Brigas e reconciliações. E muitos aniversários. Quando suas portas se fecharam anunciando as obras, já sabia que provavelmente nunca o veria novamente. Igual ao Kachanga, a casa de shows underground da Rua da Passagem onde aprendi a namorar, beber e bater cabeça. Um dia “fechou pra obras”, e nunca mais abriu. Deveria ter desconfiado. Como um lugar que não tem luz no segundo andar nem privada no banheiro poderia fechar pra obras? Desde então nunca mais caí nesse papo, só fingi para não desesperar meu cônjuge. Mas a notícia de que um incêndio tiraria de vez o restaurante de circulação foi o velório definitivo.
Sim, as coisas acabam. É preciso aceitar isso. A realidade acaba com os sonhos, uma decisão ruim acaba com um relacionamento, os incêndios acabam com o seu milk shake preferido e por aí vai um cordão de coisas. O último capítulo de um livro precisa ser escrito. Até o luto precisa acabar para dar lugar a uma nova coisa que será, em tempo, um novo luto.
A vida precisa continuar.
Com outra garfada, termino a fatia do rocambole. Uma nova velinha tomou o lugar da antiga, e faz um comentário espirituoso. Corro pra casa.
Meu amor, estou indo pra Paris.
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Quero convidar a todos os freqüentadores do RIOetc a dividirem comigo um momento muito especial: minha primeira publicação! Participo da antologia de novos escritores do Clube da Leitura, que sairá pela Ed. Flaneur. O lançamento é dia 26/06 (terça-feira) a partir das 19h na livraria Baratos da Ribeiro, em Copacabana. Espero vê-los lá! : )





































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