Rio de Janeiro, 17|08|14

[Veronica Fantoni]

Ela sobe a Real Grandeza e enxerga beleza até no trânsito parado, ela arrasta a bainha do vestido pelo chão, é gente pra todo lado, buzina de caminhão, ela dobra a esquina, estranhos que vem e vão, ela anda em linha reta e segue quieta entre rodas de bicicletas, ela desvia dos cachorros que levam o passeador pela via, ela atravessa entre sirenes, sonhos são perenes, ela aperta o passo naquela calçada estreita de Botafogo onde o caos é poesia, o amor é um jogo, mas ela não sabe jogar, nunca soube afinal, segue em frente, amarelo no sinal, atenção.

O pensamento é ainda mais rápido que um pé após o outro no asfalto cinza, olha pra cima, azul que entra pelas janelas, que gosto terá ter você, quais cores terão esses lençóis, como derrubar essas paredes que o protegem dos raios de outros sóis, ele finge que não sabe que ela tem sede e o viraria num shot só no meio da madrugada, ou o tomaria de manhã bem cedo, sem medo, num gole de café seguido de um cafuné, ele finge que não tem sede também. Se a porta estiver fechada, será que ela pode entrar sem bater?

Ela segue rente ao muro branco do cemitério, a mente não para, ela nunca viu olhos tão bonitos, cada dia é um mistério, ela olha pra frente, logo ali é Copacabana, ele não está por perto, ela flutua apressada, desejos não jazem jamais, ela já não sabe de mais nada, a literatura cura, na bolsa o novo do Wally Salomão, no peito um coração na contramão e pronto: ela sobe a rua, à espera da real grandeza do encontro.

 

* Verônica Fantoni é escritora, amiga e reabre a coluna “Crônicas Cariocas”, que volta agora em formato colaborativo. Se você tem um texto superinspirado e que tenha a rua como cenário, manda pra gente ([email protected]). Quem sabe ele não aparece por aqui? (;

Fotos: Juliana Rocha