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Qual o lugar da mulher na universidade?

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Texto: RIOetc

[Tati Roque]

A universidade, hoje, parece um espaço aberto às mulheres. Elas ocupam posições, lugares de poder. São reconhecidas “como se fossem homens”. Mas que mulher já não se sentiu desconfortável em um meio em que, não somente há uma maioria de homens, mas impera um jeito de falar como homem, um código implícito, um ritual a ser seguido? A racionalidade, o tom sempre razoável, o discurso embasado, a argumentação erudita. Valores tidos por universais, mas porque foram universalmente impostos, por homens de fato. Não que os homens sejam mais racionais e as mulheres afetivas. Essa divisão não nos serve. Não é espontaneidade que queremos. Queremos lembrar, e não deixar que ninguém esqueça que existe uma história. Essa memória que se reproduz até hoje nos ritos universitários.

A Universidade de Cambridge atribuiu o primeiro diploma a uma mulher em 1948. Antes, as mulheres podiam estudar em escolas separadas, que eram parte da universidade, porém feitas especialmente para elas. O reconhecimento dessas mulheres como alunas efetivas da universidade demorou, contudo, quase um século para ser conquistado.

A Inglaterra seria tão conservadora assim? A lei que legaliza o aborto nesse país é de 1967. Será que houve um terremoto de costumes nos 19 anos que separam o aborto do primeiro diploma? A entrada das mulheres era uma ameaça aos valores que se instituíam junto com os padrões de racionalidade europeus.

Em 1938, Virginia Woolf foi chamada a assinar um manifesto contra a guerra, em favor da cultura e da liberdade intelectual. Mas que ideia é essa de cultura e liberdade intelectual construída com o sacrifício das mulheres? Virginia não assina a carta, se recusa, e explica o porquê em Three Guineas. Havia um fundo, na Inglaterra, para ajudar os filhos do que chamavam “homens cultos” a frequentarem a universidade. As mulheres, não podendo investir com dinheiro, tinham que contribuir com trabalho para que seus irmãos, só eles, pudessem ir à universidade. Tudo de grande que havia na Inglaterra tinha sido construído para os homens. Por isso, tudo aquilo que parecia impressionante e grandioso, parecia ao mesmo tempo estrangeiro e doloroso. Virginia era educada em casa, confinada à vida privada, por que iria agora “cerrar fileira com os homens cultos”?

O caminho entre a vida privada e a vida pública sempre foi um problema para as mulheres. As tarefas caseiras, os cuidados e as preocupações com os filhos pesam, ainda hoje, diferentemente sobre homens e mulheres. E quando essa situação se atenua, é porque outras mulheres, mais pobres e mais negras, estão fazendo esse trabalho. As diferenças nas carreiras entre homens e mulheres, dentro da universidade, diz o que sobre os encargos familiares? Fazem como se isso tudo já estivesse resolvido, mas não. O trabalho doméstico continua a ser um problema para a libertação das mulheres. Melhorou um pouco nos últimos anos, algumas frequentam universidades, ou ao menos suas filhas e filhos podem vislumbrar essa perspectiva.

Na universidade, faz-se uma concessão às mulheres brancas, desde que o conhecimento produzido não seja, de fato, transformador. As mulheres são bem recebidas, como alunas ou professoras, contanto que não venham criar caso, inventar problema onde não tem. Que se faça como sempre foi, mulheres dando sustentação para que o homem- branco-culto cumpra seu destino.

Por isso, é fundamental agir cada vez mais em conjunto com outras mulheres, com outras pessoas pra quem esse lugar não seja um destino. Perguntando o que, em um saber universitário renovado, pode alimentar as exigências e as inquietações daqueles que, como nós, viemos de outro lugar. Identificando os mecanismos de dominação que incidem sobre o próprio ideal de racionalidade e de civilização. Sim, esse pode ser o nosso outro destino.

Foto da série “Salgado”, do nosso fotógrafo Bruno Machado.

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