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Porque era ela, porque era ele

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Paula Gicovate]

Eu estava feliz sem ter uma quantidade absurda de surpresas na vida até você chegar. E você chegou feito surpresa, o que torna tudo mais difícil. Um cara de outra cidade, em uma festa em Santa Teresa. Um cara com um olhar de soslaio, que me disse pouco querendo saber muito. Um cara que era oposto de um cara qualquer.

Nos beijamos. Você caçando o cheiro do meu pescoço feito um cachorro, eu te abraçando com um reconhecimento inédito. Eu nem sabia quem você era e já te conhecia faz tempo (e te agradeço pelo reconhecimento, pela vontade instantânea de te levar a lugares que você nunca tinha ido na minha cidade, mas que sabia que já eram mais seus do que meus.)

E de novo, feito surpresa, me ligou no dia seguinte e no alto da segurança de quem tem 20 e poucos anos, ainda um pouco a menos do que eu, se convidou para a minha noite sem nem saber o que eu ia fazer, sem nem saber se existia algum outro, sem nem querer saber.

Não tinha. E se tivesse, ainda assim, eu iria querer sair com você. “Gosto de gente que sabe o que quer”, disse isso te mostrando a vista da minha janela, as barracas de feira que se montavam lentamente, depois da noite que terminava na minha casa.

“Daqui dá para ver a Lagoa, vem um pouco para trás. Aqui é o Jardim Botânico, e aos domingos os feirantes avisam que tem fruta e tapioca para quando a gente acordar. Ali a esquerda tem a barraca dos peixes. Eu sempre olho os polvos com muita curiosidade. Polvo tem três corações, vive apenas seis meses e assim como eles, eu tenho muitos tentáculos. Tá vendo? Quando a gente acordar, ou quando amanhecer e a luz for forte demais por entre esta mesma janela, eu vou te levar para visitar a feira e olhar os polvos e você vai dizer que quer cozinhar para mim. Porque você cozinha e eu acho isso o máximo. A gente vai sair daqui e vai andando até a Visconde da Graça e vai sentar no meu café preferido da cidade para comer pães de queijo aerados e manteiga de figo. Minhas memórias são quase todas ligadas a comida. Minha memória vai ser sempre ligada a você me comendo, ao barulho da feira que se monta na frente da janela, a luz sépia do inverno carioca, ao cigarro dividido, ao seu olhar de galã europeu, a você pegando a minha mão para me mostrar um monte de coisas que eu nunca vi, do alto dos seus 20 e poucos anos anos, um pouco a menos do que os meus”.

E você me diria que quando pensa no Rio, pensa no Jardim Botânico. E eu te digo que quando penso em você, eu penso em uma cidade inteira que você precisa conhecer, e que o ponto de partida do meu mapa imaginário começa atrás da minha orelha, passa pelo meu corpo, e termina no meu coração.

Volta.

* Paula Gicovate é roteirista e escritora, e acaba de lançar “Este é um livro sobre amor“, pela Editora Guarda-Chuva. Se você tem um texto superinspirado e que tenha a rua como cenário, manda pra gente ([email protected]). Quem sabe ele não aparece por aqui na seção Crônicas Cariocas?

 

Fotos: Tiago Petrik

 

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