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Para cada cidade, uma versão de mim

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Texto: RIOetc

[Luiza Sposito Vilela]

A era de peixes é uma era de espelhos, diz Eleanor Catton – aquela escritora mais nova que eu e você e que já ganhou um Man Booker Prize – na nota ao leitor de seu The Luminaries. Li na crônica de uma pessoa muito mal humorada que, andando por Parati com sacolinhas de artesanato nas mãos e um vestidinho sem graça, ela nem parecia tudo isso – parecia uma garota “normal”. É incrível como as pessoas projetam. Temos tantas versões de nós quantas redes sociais possuímos. A identidade é uma performance constante na era da internet (uma era de espelhos é, por excelência, uma era virtual), e eu acho isso ótimo. Triste quem não sabe tirar proveito da situação. Na verdade não deveríamos nem precisar da internet. Moda pra mim é isso: acordar um personagem diferente por dia: vestir a nerd, a pesquisadora, a adolescente rebelde e a fashionista blasé dependendo de como está o tempo lá fora e o barulho aqui dentro. Já disse por aí que sou viciada em espelhos. Talvez seja uma obsessão teórica, talvez eu tenha lido pós-modernistas demais, talvez eu seja pisciana demais.

Mas é que as cidades demandam isso de mim. De você não? O Rio me ensinou a gostar de jeans e rasteiras, Londres me exigiu botas, muitas botas. É possível sair à noite em Paris sem prender o cabelo e passar batom vermelho? Em Providence eu aprendi a ser uma universitária básica, de keds, camiseta branca, calça jeans e mochila. Ano passado, na Costa Amalfitana, eu só queria sair com vestidos esvoaçantes. Mês que vem prometo que vou usar um fedora pela primeira vez, sem vergonha, linda e imponente em NY. Depois, em LA, assistirei a um pôr do sol de short jeans, bata branca, tênis de skatista e óculos redondinhos.

Em cada uma dessas ocasiões estarei fantasiando um futuro diferente, sonhando com um amor diferente, mudando o final do livro que eu não termino de escrever nunca. Talvez eu sofra um pouco com esse excesso de espelhos, de caminhos e identidades possíveis. Estou aqui enumerando todas as ocasiões em que o espelho é considerado uma ferramenta fatal: Narciso morreu encantado com seu reflexo, Medusa virou pedra, o peixe Beta bate a cabeça no aquário até morrer se for confrontado com a própria imagem. O Espelho de Osejed (estou citando Harry Potter, lidem com isso), que reflete os seus desejos mais profundos, acaba invariavelmente te viciando, te deprimindo ou te enlouquecendo.

Ainda assim, Eleanor está certa: vivemos numa era de espelhos, de duplos. E, apesar de todas as tentações e armadilhas, nunca fomos tão livres pra viver nossos personagens.

* Se você tem um texto superinspirado e que tenha a rua como cenário, manda pra gente (contato@rioetc.com.br). Quem sabe ele não aparece por aqui na seção Crônicas Cariocas?

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