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On the road

Fotos:
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Texto: RIOetc

[Duda Salgado d’Almeida]

Estava com uma intoxicação alimentar que me deixou de cama por quatro longos dias em que cinco pílulas de cores diferentes desciam pela garganta e um lutador de sumô dançava em cima da barriga. Perdi um trabalho, perdi o aniversário do meu pai, perdi a cabeça e fiquei louca, demente e febril. E a ânsia de assistir “Na Estrada” me consumia há duas semanas. Quando os pôsteres começaram a subir em Paris, vi o manuscrito original do livro exposto no Museu de Letras. Um imenso rolo de telex, amarelo como os dentes de um lobo velho, ocupando toda uma sala. Eu estava em brasas.

Talvez eu esteja indo rápido demais.

Há um livro. O livro. O grande livro para muitos. Chama-se simplesmente “On The Road”, como uma revista de turismo barata ou uma música ruim. A pedra fundamental do movimento beat, que nada mais era do que um grupo de jovens amigos gênios e vagabundos que se expressaram em boa literatura – um relato cru, ritmado e sem censura dos Estados Unidos pós-guerra. Era 1950, eles tinham vinte anos, rejeitavam o materialismo, flertavam com religiões orientais e todo tipo de experimentação que os levasse ao limite. Os primeiros punks, mas com ternos amassados e uma poesia maravilhosa e delirante. Praticamente todos tiveram reconhecimento literário – merecido. Dividiam a mesma fonte, a mesma matriz, e falavam das mesmas pessoas, cada um com sua visão. Um quebra-cabeça de letras retalhadas e viradas do avesso. Havia o judeuzinho de óculos e sexualidade confusa, hoje reconhecido mundialmente como o grande poeta Allen Ginsberg. Havia o velho búfalo William S. Burroughs, ídolo de Kurt Cobain, Frank Zappa ePatti Smith – chegando a conviver intensamente com estes, pois faleceu no final dos anos 90. E Jack Kerouac, o grande. O big bang. O autor da maravilhosa semente, transformada corajosamente em filme por Walter Salles.

Uma coisa importante: nenhum fã do livro ousaria, a princípio, transformá-lo em filme. A narrativa errática e poética é tão delicada que se puxarmos, ela quebra. Mas Kerouac, o próprio, tinha interesse em fazê-lo – e pediu a Marlon Brando. Ele interpretaria o personagem-bomba Dean Moriarty e Kerouac tomaria parte de seu alter-ego, Sal Paradise. Brando não se animou muito, Coppola comprou os direitos da obra e a trancou num cofre dourado (é como gosto de imaginar a coisa). E alguns anos atrás, o diretor brasileiro – também um amante da estrada, coisa que deixa muito claro em praticamente todos os seus filmes, anuncia em voz serena que está colhendo material para sua próxima filmagem, justamente o clássico. Desde então, foram dois longos anos aguardando a estréia.

A doença se abateu sobre mim, mas devo prosperar, disse para o meu corpo.  Domingo, dia oficial da família, levantei-me e fui ao cinema. Peguei um táxi vagaroso e vi os minutos escorrendo do painel do carro enquanto o lutador de sumô sapateava na minha barriga. Cheguei com dois minutos de atraso e comprei a última entrada. A última. Poltrona número 1, de fuça pra tela. A porta estava aberta, me esperando, e um trailer com Jennifer Lopez e Rodrigo Santoro tagarelava animadamente. Comecei a entrar em trabalho de parto. Então, soaram os primeiros acordes de uma musica melancólica e infantil, as luzes se apagaram e calças e sapatos antigos caminhavam por uma longa estrada pavimentada. O filme começou.

AGORA HÁ UM GRANDE NÓ NA MINHA GARGANTA.

O que vejo, nas próximas duas horas e vinte minutos – que passam agradavelmente, é um cinema lotado de seres vivos entrando em contato com o que mudou a minha vida. E eu na primeira cadeira. Parecia que o filme era meu. Toda vez que riem com as crises existenciais de Carlo Marx, ou com a virilidade de Dean, sinto um aconchegante abraço. Não havia melhor lugar do que aquela primeira cadeira, com ninguém na minha frente e uma imensa tela que nem cabia nos meus olhos. Pude ver os poros dos personagens reais que tanto amo, pude vê-los em movimento e em cores, e dividi-los com quem nunca os sonhou antes. Já fiz isso muitas vezes, e tenho certeza que Walter também – não houvesse de sonhá-los, não faria o filme que fez. Uma verdadeira ode a Kerouac e seus amigos, aos meus heróis. Um filme que comunica, que não é hermético. Um filme aberto como a própria estrada.

A única forma de transpor On The Road pra tela é desprezar a costura de retalhos literária de Kerouac, absorver os sentimentos e emoções que essa leitura desperta e provocá-los novamente através de imagens. Desprezar a geografia da viagem de Dean e Sal, desprezar personagens e acontecimentos. O livro trata de sensação. Garotos deslocando-se pela sensação e apenas isto. Não há clímax, pois não há fim, não há objetivo, apenas a estrada e o que acontece nela. Para Kerouac havia um livro, para Ginsberg o grande poema, mas para Dean Moriarty havia apenas a longa e dura estrada. Dean, na verdade Neal Cassady, inclusive morreu nela, ao lado de uma linha de trem no México.

O que senti vendo o filme é o que senti lendo o livro. Um vazio, às vezes uma exaustão, uma vontade de gritar, um choro que vem sendo trazido lentamente para explodir no final, como fogos de artifício.

Penso em Allen Ginsberg. Penso em Jack Kerouac. Penso em William Burroughs. Penso em Neal Cassady. Penso em Carolyn Cassady. Penso em LuAnn, penso em David Kammerer, penso em Gregory Corso, penso em Lucien Carr. Penso em Walter Salles. Rezo por todos. Amém.

 

 

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