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O trabalho pode ser o mesmo

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Texto: RIOetc

 

[Claudia Rodrigues]

O trabalho pode ser o mesmo, mas nem sempre o salário.  Enquanto na União Europeia, elas ganham 16% menos que eles, segundo dados do Eurostast divulgados na última quinta-feira (05/03), no Brasil o fosso é maior.  O último censo do IBGE, divulgado no ano passado, revelou uma diferença de 30% na faixa salarial entre homens e mulheres. E a mesma pesquisa constatou que há mais mulheres cursando universidades hoje.

A discriminação é comum em países que avançaram na redução das desigualdades e foi exposta no discurso que Patrícia Arquette fez ao receber o Oscar de melhor atriz coadjuvante deste ano. “É nossa vez de ter salários iguais de uma vez por todas, e direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos”.  Ao tocar na ferida, a atriz não só roubou a cena como trouxe à luz uma realidade difícil de engolir.

O que explica o fato de a ex-editora-chefe do New York Times, Jill Abramson, reconhecida por sua competência, ganhar menos que Bill Keller, o jornalista a quem ela substituiu? Segundo a Revista New Yorker, Abramson – a primeira mulher a ocupar cargo de editor-in-chief no diário americano – teria sido demitida, em 2014, depois de descobrir que ganhava menos que Keller e de ter reclamado sobre a injustificável diferença aos executivos no comando do NYT. A resposta oficial do alto staff: os salários e benefícios pagos a Abramson “não eram consideravelmente menores que os de Keller”. “Eram comparáveis”.

Por que as mulheres ganham menos? A pesquisadora e professora Ligia Pinto Sica, coordenadora do Grupo de Pesquisas em Direito e Gênero da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta, como razões no Brasil, a cultura patriarcal que valoriza o trabalho masculino e a licença-maternidade.  Em um estudo recente, Ligia Sica se debruçou sobre 73.901 cargos de diretoria e membros de conselhos administrativos, em 837 companhias de capital aberto, no período de 1997 a 2012 e concluiu que a taxa de mulheres em cargos de alto escalão se manteve a mesma nos últimos 15 anos no Brasil.

Certamente a questão da maternidade acirra o preconceito, a despeito das mulheres exercerem, hoje, qualquer tipo de trabalho, mesmo os ditos “masculinos”. Elas ocupam qualquer posto, de presidente a gari, de engenheira a frentista.  E se destacam pela sensibilidade criatividade e mesma dedicação ao trabalho que seus companheiros de profissão.

A igual competência não impede injustiças; nem a dificuldade de ascensão. Um termo em inglês dá conta da barreira imposta pelo mercado: glass ceiling. É como um teto invisível onde a mulher esbarra e para de subir na carreira. Mas, sem fugir da raia, as mulheres vão avançando.

Nos principais jornais brasileiros (O Globo, Folha de São Paulo e Estado de S. Paulo), não há editoras-chefes.  Mas está na hora dos empresários de mídia brasileiros seguirem os passos do jornal francês Le Monde, que alçou Natalie Nougayrède à função de editora-chefe em 2013, a exemplo de Abramson no New York Times. A francesa, que já deixou o cargo, à época da promoção, reconheceu que a conquista era uma “revolução”.

À procura de um novo editor para substituir Alan Rusbridger, o editor-chefe que vem comandando o The Guardian há 20 anos,– e deixa o posto no próximo Verão europeu –, o periódico fez uma eleição interna entre quatro candidatos que concorreram à vaga. Dos quatro, três eram mulheres.  O resultado foi divulgado na última quinta-feira (03/05). Venceu Katharine Viner, que ocupava a chefia da sucursal do Guardian nos Estados Unidos.

Sinal dos tempos. As mulheres querem e buscam os desafios. E conseguem. Basta de discriminação.

 

Foto da série “Salgado”, do nosso fotógrafo Bruno Machado. 

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