Rio de Janeiro, 08|03|15

 

[Daniela Reis]

Eis que chegou o dia em que reconheci a força feminina em mim. A índia velha, a onça, a serpente, a lua, a menina, a mulher. Me reconheço em todas elas. E todas elas me habitam. Fluem por todos os meus poros, navegam pelas minhas veias e pelo sangue que devolvo para a Terra, a mais feminina das forças, a cada ciclo que me conecta à irmandade de todas as mulheres que passaram e que passarão. Força que caminha pelos meus pés, que fala pela minha boca e se expressa pelo timbre e pelo tom da minha voz.

Sinto e ao mesmo tempo sou essa força. Suave, delicada, sensual, apaixonada. Mas também guerreira, criativa, ativadora, profundamente enlaçada à força masculina que, equilibrada, complementa, em vez de se opor e lutar contra.

Eis que chegou o dia em que desisti de lutar por um lugar que não é meu e aceitei minha receptividade, minha amorosidade, minha compaixão e generosidade. Ocupei o meu centro, o sagrado espaço feminino que existe em todas nós. Que quando se manifesta plenamente em mim, manifesta-se em todo o universo, em toda a sua plenitude.

Eis que chegou o dia em que me olhei no espelho e vi a profunda beleza de ser mulher, de estar mulher, de amar a grandeza da alma feminina que integra cada célula, cada corpo, cada curva, cada ruga, cada fio de cabelo negro ou branco que cresceu testemunhando as descobertas de simplesmente ser.

Abre os olhos, mulher. Abre os olhos para a vida que a presenteou com a magnífica possibilidade de ser a curandeira, a mãe, a filha, a parteira. Abre os olhos de dentro, mulher, para ver como é linda a força que nos habita e nos torna uma só.

Eis que chegou o dia em que assumi a maternidade de mim mesma, das minhas dores, dos meus medos, das minhas desilusões e também de todas as ilusões que em algum momento foram necessárias para que pudesse parir e nascer essa flor delicada com que a natureza feminina perfuma a vida.

Vem, mulher. Nasce agora. Deixa vir à luz esse brilho que habita o mais escuro espaço que tantas vezes tentamos esconder. Volta para o nosso círculo sagrado, para a dança de roda, para a ciranda. Volta, mulher. Volta para o seio da nossa mãe. Experimenta de novo o prazer de receber e, porque recebe, tem tanto a oferecer. E oferece o seio da sua força à nutrição, o útero à vida que se renova a cada instante, num movimento incessante de criar, criar e criar.

Eis que chegou o dia em que sinto a força feminina com tanta intensidade e clareza, que não posso mais resistir à ela, senão deixar-me levar e conduzir por ela, em profunda e verdadeira entrega. Vem, mulher.

 

Foto da série “Salgado”, do nosso fotógrafo Bruno Machado.