Rio de Janeiro, 01|04|12

[Duda Salgado D'Almeida]

Já faz um tempo que prefiro a madrugada em breu. Despedi-me da claridade como a mãe que joga o filho no mundo. Pari milhões de tartarugas na areia da praia, e elas desapareceram num oceano escuro. Coloco meu pijama de marinheiro e deito no colchão branco. Quando entra a madrugada, é minha hora. Visto meus óculos submarinos de tartaruga e desço, desço, desço. Encontro filhos rodando em correntes marítimas. Aqui não tem linha reta, e levitar é de verdade.

Chega um momento em que dormir é preciso. Não pelo ato de repousar os músculos, mas para injetar no homem a dose de loucura que lhe falta; a dose necessária para que a vida desperta seja compreendida. Sem sonho não há dentro e fora, a gente não sabe quem é, nem quem quer ser.

Às vezes, nado sobre a superfície de mares nítidos – amarelo claro ou branco com boias coloridas e cubinhos de gelo. É difícil competir com os sonhos, então preciso me molhar, muito. Numa dessas empreitadas despertas, ancorada num transatlântico de mulheres, fui parar numa ladeira escondida na Glória, cercada de garrafas antigas marrom fumê, mesas de pés trocados e bancos retráteis. No banheiro, uma poesia de Walt Whitman, que li enquanto fazia xixi, e mais umas três vezes. Uma menina espera sua vez e dividimos um olhar tímido para o chão. Temos a estranha complacência das que dividem o vaso sanitário – isso é tão feminino!

Lentamente as amigas começam a debandar, estão cansadas. É sempre assim. Chegam cheias de animação, somam-se as garrafas, alguém pergunta “E agora?”, e todas dão respostas efusivas sobre destinos prováveis e fantásticos. Faço cara de pijama e elas ralham comigo, reproduzem onomatopeias com eco, “aaaaaaah”, “uhhhhhhh”, “aaauuuuu” e eu digo que vou, e vou mesmo. Então a gente paga a conta, se levanta e vai andando em silêncio. Aí uma diz que vai pra casa porque está cansada e precisa acordar cedo, aí a outra resolve aproveitar a carona da uma, a terceira diz “Vocês vão praquele lugar mesmo? É meio longe pra mim, aqui tá mais perto de casa”, e bum. Daquela cascata de mulheres relampejantes sobra a marinheira despida que prometeu que ia e mais alguém com olhos de cachorro.

Enquanto um grupo faz animadamente um churrasquinho improvisado ao som do Exalta(samba), estico o dedo pro táxi. Carros… são menos graciosos que barcos, mas ainda assim, cada um com o transporte que lhe cabe.

Proponho seguirmos para a Capitão Salomão, na divisa de Botafogo e Humaitá. Estou com planos secretos de comer um delicioso risoto de limão siciliano no Meza Bar, mas talvez seja fim de noite demais pra minha companhia. Sentamos no Plebeu.

O Plebeu me deixa triste. Já me deixava triste o lugar em si, e agora ainda tem uma lembrança ruim atrelada. E é madrugada, o que torna o Plebeu triplamente triste, mas não sou preconceituosa com as minhas tristezas. Mais líquido amarelo claro, e uma conversa triste, pra combinar com o Plebeu. Conversa sobre amores partidos. Sobre homens. Sobre homens e seus medos. Sobre as nossas manias com os homens. Sobre como vemos os homens. Sobre como a mente mente. E eu falo, falo, falo. Falo quando sei que alguém precisa escutar, senão calo.

São três horas agora, meu estômago ronca. Adeus risoto. Vou até o Fornalha comer um salgadinho. Só faço isso quando estou bêbada. Já consegui parar de beber Coca-Cola. Já diminuí a cerveja. Agora quero extinguir o Fornalha. A cor da fritura na madrugada clara me deprime.

Escritores são egoístas. Tento ser agradável e companheira, mas a verdade é que só penso no breu, no pijama, no óculos submarino de tartaruga.

É difícil competir com os sonhos e com a matéria lunar que divido… Eu de marinheira, ele pensando em peixes.

“A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,

A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procrastino, de nada mais necessito,

Estou farto de reclamações entre quatro paredes, bibliotecas, críticas conflituosas,

Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.”

(Trecho de “Canção da Estrada Aberta, de Walt Whitman)