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Janeiros

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Texto: RIOetc

[Edu Araújo/Diálogos de Bolso] Foto de Tiago Petrik

Ele não fazia nada sozinho. Era um problema. E depois da morte do pai, a coisa se agravou.Terço, promessa, passe em mesa-branca, terreiro de macumba, yoga e até banho de pipoca. Nada. Almoçar sozinho? Um tormento. Chegar sem ninguém numa festa? Nem pensar! As muitas sessões de terapia não resolveram e ele já havia dado o caso como encerrado. Eis sua via crucis. Teria que viver fugindo do fantasma da solidão.

Era dezembro, um dia antes do réveillon. O casamento chegava ao fim horas antes da época do ano em que todo mundo combina de ser feliz. Depois de dois anos e meio, o tempo pára. Ou não, já cantaria um tal de Agenor. Perdido na imensidão do apartamento no Arpoador (Copanema para os íntimos), ele desce a Bulhões de Carvalho com vendedores de Palmas espalhados nas esquinas, entra no metrô, chega na famosa festa de uns amigos numa cobertura no coração de Copacabana e bebe o primeiro gole de espumante.

Champagne, risadas, abraços e sua cabeça fingindo fazer mil viagens. Mas ficou parada naquela varanda em que foi comunicado do fim. Ele não fazia nada sozinho.

Alguém avisa que já é quase meia-noite. Os grupos vão se reunindo e descendo aos poucos. Afinal, nessas horas o elevador sempre vira a filial da Rua Jardim Botânico numa sexta às 18h. Eles evitam o congestionamento e descem mais cedo para a praia. Fazem pedidos, jogam flores, cantam e dançam até que o relógio começa.

Virada. Gritos. Fogos. Olhos brilhando. Abraços. Sorrisos. Ele lembra do ano anterior: a mesma esquina, os mesmos amigos queridos e uma diferença, o outro também estava lá. Ele respira aliviado pela contagem regressiva ter acabado e se despede de todo mundo ainda na areia. Eles insistem para que ele fique, suba e beba algo. Ele nem sabe de onde tira forças, mas prefere voltar para casa caminhando. Sozinho.

Enfrenta o mar de gente feliz (e de branco!) que se aglomera com vista para as águas de Copacabana. Ele lembra que mais da metade do mundo queria estar no seu lugar – não nessas condições. Se sente um privilegiado e ele, que não consegue nem almoçar sozinho, chega ao seu apartamento depois de ter percorrido toda a faixa de areia tomada de gente. Sobe, coloca o pijama, olha pela janela (a mesma onde tudo acabou na noite anterior), acena e deseja “feliz ano novo” para bêbados cantores. Ele quer acreditar que será um novo ano bem feliz. Deita, liga a TV no Show da Virada, lembra da alegria que cruzou seu caminho, do barulho do mar, das pedras portuguesas, da leveza que encontrou naquele lugar, dos dias de calor e coloridos que se aproximavam, dos shows ensolarados na orla e vai dormir com a sensação de que encontrou dois motivos para continuar: o Rio e janeiro.

 

* Se você tem um texto superinspirado e que tenha a rua como cenário, manda pra gente ([email protected]). Quem sabe ele não aparece por aqui na seção Crônicas Cariocas?

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