[Duda Salgado d'Almeida / Foto: Tiago Petrik]
Eu não tenho medo da cidade.
(!)
Olhos incrédulos piscam mecanicamente:
Há perigo nas ruas,
mas perigo ou medo
há também nas casas.
Sem medo não se sai
do útero
Medo é deixar de viver
o que é bom pra gente.
Pego o metrô ali no Cantagalo.
E você não tem medo?
Esqueci numa calça velha, como aquela nota de vinte reais
que a gente só acha quando precisa
e só perde quando não faz diferença.
As mesas nas calçadas
estão contra a lei.
As mesas não têm medo
No pior serão retiradas de braços dados
e recostadas em paredes
vendo tudo passar.
Dizem que aqui é Nova York,
Só ainda não entendi
aonde.
Dizem que o prefeito chamou o prefeito de lá
pra criar medo
de organização.
Um judeu ortodoxo passa correndo
terno preto, chapéu e cabelo encaracolado
Torá debaixo do braço encapada
a família no bolso
ali na Alberto de Campos, indo pruma Jerusalém
que os olhos não sabem ver
E a mulher de branco, que agora é azul e rosa
com seu carrinho de feira que muito me agrada,
Só não dá pra perguntar onde comprou
porque a resposta os ouvidos também não entendem
E o restaurante tradicional de frutos do mar
Ostras todos os dias
Aquário enfeitado cujo peixe
não se pode pescar
Bem na Farme de Amoedo,
“a rua dos gays”, falei pro meu pai.
Mas ele é dos anos 60
e acha que todas as ruas são gays.
O porteiro cumprimenta em paraibês,
entendo tudo
e acho bonito.
Tenho ouvido treinado por Vó
que muito já me disse
E a lanchonete de neon colorido,
fechou pra obras e nunca mais abriu
Eu já sabia, mas fingi que não ia ser igual
ao sobrado da Rua da Passagem
que deixou os punks órfãos
e me fez ouvir tecnobrega.
Dizem que o confeiteiro foi ali pro lado
pra padaria com nome do bairro.
Era verdade,
hoje comi bolo floresta negra
e lembrei da infância.
E a galeria de arte da moça ruiva bonita
que salva os cachorros da rua
Porque nem ao maior desafeto,
por menor que seja o espírito e maior seja a vingança,
se deseja o esquecimento
dos paralelepípedos.
Um dia, solitária, bebi absinto no restaurante mexicano
e topei com um cigano
que arrastava o tênis puído na pedra portuguesa
seguindo a batida da corda
Ele me disse que aqui é o lugar pra se morar
Justo.
Há muitas verdades,
nessa cidade.
Medo?
Só do carrapato
Que achei na minha cama.
Coisa de cidade grande,
Senhor prefeito de Nova York?
Eu vivo aqui,
Às vezes pela metade.
Às vezes sou um pedaço
Amputado
Com coceira de membro fantasma.
Mas às vezes acordo
E encontro
O que faltava. Subverto o tempo
E comUNgO.
Deixo de ser meio pra virar rio
E mesmo que o poeta da cidade esteja morto
o futuro que ele plantou
nas barrigas
dos seus As
está em todo lugar.
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29/05 – Show em homenagem ao poeta Ericson Pires (1971-2012) no Circo Voador, com Rodrigo Amarante (Los Hermanos), Marcelo Yuka, Segura Nega e AVA com participações de Jorge Mautner, Otto e Hapax e DJs Saddam e Nepal. A partir das 19h, R$ 30 (meia) ou R$ 60 (inteira).
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