Rio de Janeiro, 27|05|12

[Duda Salgado d'Almeida / Foto: Tiago Petrik]

Eu não tenho medo da cidade.

(!)

Olhos incrédulos piscam mecanicamente:

Há perigo nas ruas,

mas perigo ou medo

há também nas casas.

 

Sem medo não se sai

do útero

Medo é deixar de viver

o que é bom pra gente.

 

Pego o metrô ali no Cantagalo.

E você não tem medo?

Esqueci numa calça velha, como aquela nota de vinte reais

que a gente só acha quando precisa

e só perde quando não faz diferença.

 

As mesas nas calçadas

estão contra a lei.

As mesas não têm medo

No pior serão retiradas de braços dados

e recostadas em paredes

vendo tudo passar.

 

Dizem que aqui é Nova York,

Só ainda não entendi

aonde.

Dizem que o prefeito chamou o prefeito de lá

pra criar medo

de organização.

 

Um judeu ortodoxo passa correndo

terno preto, chapéu e cabelo encaracolado

Torá debaixo do braço encapada

a família no bolso

ali na Alberto de Campos, indo pruma Jerusalém

que os olhos não sabem ver

 

E a mulher de branco, que agora é azul e rosa

com seu carrinho de feira que muito me agrada,

Só não dá pra perguntar onde comprou

porque a resposta os ouvidos também não entendem

 

E o restaurante tradicional de frutos do mar

Ostras todos os dias

Aquário enfeitado cujo peixe

não se pode pescar

Bem na Farme de Amoedo,

“a rua dos gays”, falei pro meu pai.

Mas ele é dos anos 60

e acha que todas as ruas são gays.

 

O porteiro cumprimenta em paraibês,

entendo tudo

e acho bonito.

Tenho ouvido treinado por Vó

que muito já me disse

 

E a lanchonete de neon colorido,

fechou pra obras e nunca mais abriu

Eu já sabia, mas fingi que não ia ser igual

ao sobrado da Rua da Passagem

que deixou os punks órfãos

e me fez ouvir tecnobrega.

 

Dizem que o confeiteiro foi ali pro lado

pra padaria com nome do bairro.

Era verdade,

hoje comi bolo floresta negra

e lembrei da infância.

 

E a galeria de arte da moça ruiva bonita

que salva os cachorros da rua

Porque nem ao maior desafeto,

por menor que seja o espírito e maior seja a vingança,

se deseja o esquecimento

dos paralelepípedos.

 

Um dia, solitária, bebi absinto no restaurante mexicano

e topei com um cigano

que arrastava o tênis puído na pedra portuguesa

seguindo a batida da corda

 

Ele me disse que aqui é o lugar pra se morar

Justo.

Há muitas verdades,

nessa cidade.

 

Medo?

 

Só do carrapato

Que achei na minha cama.

Coisa de cidade grande,

Senhor prefeito de Nova York?

 

Eu vivo aqui,

Às vezes pela metade.

 

Às vezes sou um pedaço

Amputado

Com coceira de membro fantasma.

 

Mas às vezes acordo

E encontro

O que faltava. Subverto o tempo

E comUNgO.

 

Deixo de ser meio pra virar rio

 

E mesmo que o poeta da cidade esteja morto

o futuro que ele plantou

nas barrigas

dos seus As

está em todo lugar.

 

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29/05 – Show em homenagem ao poeta Ericson Pires (1971-2012) no Circo Voador, com Rodrigo Amarante (Los Hermanos), Marcelo Yuka, Segura Nega e AVA com participações de Jorge Mautner, Otto e Hapax e DJs Saddam e Nepal. A partir das 19h, R$ 30 (meia) ou R$ 60 (inteira).

Toda a renda será revertida para a família do Ericson, para ajudar a pagar as despesas hospitalares. Os primeiros 50 ganham um livro do poeta.