Dia dos namorados. A gente sempre disse que não ligava, mas ligava – todo dia 12 ele aparecia com uma “lembrancinha”, uma coisa que viu na rua e lembrou de mim, ou propunha um passeio pela noite onde, de repente, batia uma fome e quem sabe podemos comer ali naquele restaurante que você gosta tanto?. Não nesse dia 12. Eu tinha um encontro com a minha cidade, com um lugar onde certamente muitos casais haviam se conhecido e comemorado o dia dos namorados: o famoso Imperator, no Méier, que agora também é o Centro Cultural João Nogueira.
O antigo cinema e casa de shows de 1954 estava fechado há anos, aguçando mais ainda minha curiosidade. Sou fascinada pelo Rio de outras épocas, o Rio que só tinha uma igrejinha no alto do morro, o Rio sem carros, o Rio glamuroso dos anos 40 e 50. A cidade é nova mas tem tempo, e história. As fotos da fachada iluminada do Imperator e casais de saias compridas com topetes Elvis me fazem pensar nos avôs que não conheci levando vovós faceiras para passear. Histórias que ninguém me contou mas que consigo muito bem imaginar. Pena que a cidade tem o hábito de deixar abandonados esses lugares, aí alguém os desapropria e eles caem por conta própria.
Infelizmente, o trânsito não foi carinhoso comigo. Com o pé cheio de pontos após um acidente doméstico e sem táxis por causa da Rio+20, saí correndo para o metrô tal qual um pirata da perna de pau até o Palácio da Cidade, em Botafogo. Reconheço uma evolução natural da minha gana de viver: mesmo prejudicada, corri, peguei metrô, ônibus, corri mais um pouco e consegui pegar a última van rumo ao Méier – tudo isso usando smoking. Mas foi só esticar o pé sobre as poltronas vazias, passar a pulseira amarela em volta do pulso e estava pronta para o meu encontro.
Vejo a paisagem mudando através da janela. Mergulhamos no Rebouças, passamos o Maracanã, a Castelo Branco. O ar muda, a cidade fica mais quente, você se sente naqueles minutos anteriores a um encontro com alguém que não ama mas sabe que é questão de tempo. A distância é longa, o chão é pra quem tem coragem de se deslocar. Quando a gente não sabe pra onde vai, é difícil saber quando chega.
Não faço parte do mundo do samba e reconheci poucos rostos, mas era perceptível que estávamos em meio à fina flor do tamborim. Cruzei o grande tapete vermelho com um pé dentro e um pé fora, pra não perder o costume.
Uma banda de chorinho tocava no terraço enquanto eu abocanhava dois cachorros quentes Geneal saídos daquela charmosa carrocinha, coisa de uma década mais nova que o próprio Imperator. “Olha, desse terraço dá pra ver o céu”, dizia uma convidada. Aí o prefeito chegou, trazendo um batalhão de fotógrafos e cinegrafistas, uma jornalista desprevenida caiu e ninguém ajudou enquanto o prefeito sorria maquiado. Desci e me acomodei nas escadas superiores para ver o filho do homem, Diogo Nogueira, o sambista bonitão que ignorantemente desconheço, mas começarei a prestar atenção. Timbre carinhoso. Diogo entrou no palco introduzido por um vídeo do pai, a voz muito grossa, o olhar muito calmo, um jeito melancólico de falar. Talvez por isso sempre fugi do samba – é pura tristeza em forma de música. O rock também pode ser depressivo, mas pelo menos tem uma guitarra que permite a fuga. O samba não. Mas Bob Dylan me preparou pra receber essa porrada, esse clarão. Estou pronta.
Vejo a Velha Guarda da Portela, todos sentados em frente ao palco, trajando suas cores do coração. O faxineiro, também a própria velha guarda, largou o esfregão e foi pro gargarejo sambar um samba meio duro, animado, feliz. Ninguém brigou e o esfregão ficou lá, largado. As senhorinhas gritavam adjetivos abusados e quando menos se esperava, um senhor de aparentes 90 anos levantou-se de sua cadeira e começou a dançar. Eles celebravam algo que sou nova demais para entender.
Pra fechar a noite com chave de ouro, entra a figura que despertou paixão e fúria; Marrom, ou Alcione, que veio com uma voz que lotou a sala inteira, brilhando unha, olho, dente, vestido e cabelo. Não havia tufão que a decompusesse. Admiro esse tipo de mulher. E que voz, que voz.
Depois desse arrebatamento, fui embora. Não tinha como ser melhor do que aquilo. Voltei correndo pra casa e fui recebida com surpresa. “Achei que não te veria hoje. Aliás, você sabe que dia é hoje?”.
Sei. Sei sim.








































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