Rio de Janeiro, 14|07|15

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Fotos: Bruno Machado

[Paula Duarte]

Existe uma magia que só se manifesta quando entramos em algum transporte coletivo. Vale trem,  bonde, metrô, van. E varia consideravelmente, dependendo do onde: as impressões vividas num trem da Índia nunca serão as mesmas experimentadas em um metrô parisiense. Há que se estar preparado pra cada comportamento, cultura, clima e época do ano.

Mas o que  quero compartilhar aqui é a grande aventura que é andar de ônibus no Rio de Janeiro. Nem sempre agradável ou confortável, mas sempre rica e profusa de aprendizados sobre o outro, a diferença, a solidariedade, a paciência, os limites, e muitas vezes, nos dias de sorte, a diversão.

O mercedão de 42 lugares, “piloto” e cobrador, faz parte da minha vida desde a infância, quando atravessava, diariamente o Alto da Boa Vista para chegar ao colégio na Tijuca. Além de conhecer cada curva daquela viagem de uma hora, conhecia cada passageiro que pegava o 225 das 6h15, além do motorista e do cobrador, dois fofos. Formávamos uma verdadeira família bocejante, a ponto de cantar parabéns pros aniversariantes do dia. Um verdadeiro consolo pra menina que era acordada todos os dias às 5 da manhã pelo seu querido paizinho.

Depois, por um bom tempo da vida, por morar longe e pela vontade de chegar mais rápido que quase todos temos quando nos rendemos ao mundo urbano, me tornei motorista. Mas não por isso, cheguei mais rápido. A auto estrada Lagoa-Barra fez parte da minha rotina por anos a fio, e gastava boas horas do meu dia parada no mesmo lugar, no trio embreagem-acelerador-freio. Apesar do conforto, da musiquinha e do ar condicionado, lá estava “Monsieur Stress” ao meu lado no carona, presença garantida em cada uma dessas viagens.

Com o tempo fui percebendo que abrir mão do conforto e do individualismo que o carro me dava era uma ótima maneira de deixar Mr Stress sem carona. Há quase uma década me despedi de vez dos automóveis, abrindo espaço para o imprevisível mundo dos coletivos. Afirmo e confirmo que sou muito mais feliz assim.

Mas nem tudo são flores para quem encara o “busão nosso de cada dia”. Uma das coisas que me entristece é ver Mr Stress sentado no colo dos motoristas e cobradores, que, além de terem a dura missão de passar suas horas de trabalho em meio ao selvagem trânsito carioca, não são valorizados como deveriam. E aí, dando ouvidos à minha alma cor de rosa que acredita piamente na viralização de gentileza, lancei o evento Dia da Gratidão ao Piloto do Coletivo, no próximo 3 de agosto, para podermos levar mais amor e agradecer essa classe que se encontra em um nível desumano de tensão e más condições de trabalho.

Que tal se nesse dia, nós, usuários dos transportes públicos, levássemos o nosso melhor pros motoristas e cobradores: vale flor, bombom, poesia, sorriso, “bom dia”, música, ou tudo junto e misturado!

O importante é sensibilizarmos essas pessoas que já andam tão cansadas e infelizes e que não têm tido muitas coisas boas para partilhar. Quem sabe assim eles também se contaminam dessa onda de gentileza e alegria e consigam ficar mais em paz?

Simbora povo, no Bonde do Coletivo por um Coletivo mais Coletivo!  <3

Paula Duarte é Risoterapeuta, Consteladora Familiar, Escritora e Otimista do fio de cabelo ao dedão do pé. Espaço Cósmico.