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Deserto de lixo à beira-mar

Fotos:
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Texto: RIOetc



Imagens: reprodução

[Duda Salgado d’Almeida]

O Rio é a cidade do momento e a cidade do futuro, a cidade que recebe dezenas de estrangeiros do velho mundo numa espécie de êxodo às avessas. O Rio continua sendo o mundo novo que sempre foi, a diferença é que no passado o fluxo seguia para o mundo velho, estruturado, seguro. Mas agora, assim como há quase 600 anos, tal qual os portugueses, gringos embarcam em navios de metal voador e desembocam em nossos novos portos tortos.
Sejam bem-vindos.

Mesmo quando o Brasil mal existia no mapa-múndi, no meio de uma ditadura militar que mal acreditamos que aconteceu, nascia um aterro sanitário no bairro de Duque de Caxias que em pouco tempo se consagrou o maior da América Latina. Isso diz duas coisas sobre nós, cariocas: primeiro, produzimos muito mais lixo do que deveríamos. Segundo: até muito pouco tempo atrás, não tínhamos idéia para onde ia nosso lixo. O nome do lugar não podia ser menos paradoxal: Jardim Gramacho, que se tornou internacional a partir do documentário do artista Vik Muniz, “Lixo Extraordinário” (indicado ao Oscar 2011).

Aqui é a cidade do futuro, aqui é a cidade do lixo.

Eu acredito na experiência do estranho. Acredito em passar por coisas que sabemos que serão desagradáveis. Acredito em jogar-se por becos escuros e tatear o caminho seguro ainda que os olhos não vejam a princípio. Junto do advento da luz elétrica, veio uma iminente cegueira falsa e o homem esqueceu de ver que pode enxergar no escuro, como um morcego. Não fosse por isso, não chegaria até aqui. Mas alguém apagou a luz do que fazemos de feio, de humano. Alguém apagou a luz do que a gente não deveria ver. Mas a arte, e agora a internet, nos recordaram de uma herança celular: já fomos tudo, nascemos da água, de oceanos escuros. Não há nada que não possa ser visto por olhos humanos.

Hoje, uma luz parcial sobre o lixo está acesa. Vemos os belos invólucros criados por designers e o lixão gráfico da novela Avenida Brasil enquanto a parte feia e obscura, a realidade do Jardim Gramacho, é oculta numa penumbra. O documentário de Vik acendeu as luzes de emergência, mas continuamos muito distantes e alheios daquela paisagem montanhosa de lixo. Não estou propondo um tour pelo lugar – definitivamente não é para nervos sensíveis. O que tudo isso desperta é um desejo e um cuidado de planejar ações para que não tenhamos que lidar com conseqüências.
A conseqüência é não tratar o que se joga fora como se trata um objeto novo.

Por mais que leve o nome asséptico de “aterro sanitário”, caberia batizá-lo de “aterro insano”, pois tudo está misturado num só bolo, seja orgânico, plástico ou papel. O Jardim Gramacho recebe 7 mil toneladas de lixo, despejados durante o dia inteiro por caminhões que misturam o meu lixo, o seu, o de todos os moradores do Rio de Janeiro e de mais dois municípios. Agora pense que, no meio desse lixo, há todo tipo de coisa que se joga fora sem pensar para onde vai – sofás, televisões, as perigosíssimas pilhas e até mesmo restos humanos.

Sua imaginação com certeza não chega perto da verdade. Recomendo aos simpatizantes e não simpatizantes de Vik Muniz assistirem “Lixo Extraordinário” apenas para ver e entender como se forma o lixo da nossa cidade, sem precisar submergir na terapia de choque de ir até lá. E como quem joga o lixo fora somos nós, entender o lado que não vemos de nós mesmos, e muitas vezes desprezamos.

Nós somos o nosso lixo mesmo de luz apagada.

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