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Apenas mais uma de amor

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Texto: RIOetc

[Maria Clara Drummond]

O mundo não precisa de mais um texto enaltecendo o Rio de Janeiro: há alguns maravilhosos que ofuscam as milhares de crônicas criadas a cada vez que o pôr do sol é instagramado no Aterro do Flamengo. O mundo também não precisa de mais um texto comparando a cidade maravilhosa com São Paulo: dê um google e você encontrará mais blogs que tratam do assunto do que grãos de areia na praia do Arpoador. Recolho-me então à minha insignificância, mas é difícil uma carioca “expatriada” morando em São Paulo há quatro anos – e que opta em voltar à cidade natal quase todo fim de semana – não querer acrescentar mais alguns itens da eterna comparação\competição.

Atenho-me então a uma determinada característica e suas variações: a ambição paulistana versus a despretensão carioca. Parece-me que o que dizem é verdade. São Paulo não aceita bem o ócio. Os colegas de trabalho reclamam: no Rio de Janeiro, às seis da tarde, não tem mais ninguém no escritório. É lógico que não: faz muito melhor à alma dar um último mergulho no mar antes do anoitecer ou beber um chope com os amigos no Baixo Gávea que ficar enclausurado numa sala em frente ao computador. Para que mesmo? Ah, sim, para ganhar dinheiro para então gastar dinheiro. Enfim, consumir. Ao contrário do que querem que a gente acredite, as melhores coisas na vida são grátis: o mar, a dança, a natureza, a arte, o amor. E tem isso tudo em Ipanema, no Jardim Botânico ou Botafogo.

Uma vez me disseram que este way-of-life carioca é uma forma inconsciente de rebelar-se contra o capital e, sendo assim, a famigerada preguiça torna-se um ato político. Embora tenha consciência do romantismo deste discurso – afinal, é preciso pagar as contas – ele não deixa de ser libertador por meramente existir. O típico carioca, daqueles que fazem jus à reputação de povo feliz, não precisa de relógios e bolsas caras, não precisa ir para o camarote da melhor boate nem comer no restaurante mais sofisticado. A cidade lhe basta.

 

* Se você tem um texto superinspirado e que tenha a rua como cenário, manda pra gente (contato@rioetc.com.br). Quem sabe ele não aparece por aqui na seção Crônicas Cariocas?

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