Rio de Janeiro, 08|03|15


[Nádia Rebouças]

Fui salva! Sou carioca. Mudar para o Rio de Janeiro foi a decisão mais sábia que tomei na vida. Duas cidades tão perto e tão longe. Cheguei carregando marido, filha pequena e o hábito de casa. Os amigos em casa. Cozinhar em casa. Voltar para casa correndo depois do trabalho. Fugia na sextas feiras para algum lugar. Durante muitos anos para Ilha Bela. Mar? Quatro horas para chegar e poder conquistar um verde respirar.

O frio dos invernos, bastante fortes naqueles idos do final dos anos 70, faziam com que eu sempre virasse uma embalagem. Não saía de casa, nem no verão, sem levar um agasalho. Cresci ouvindo que era uma felizarda por ter nascido em SP. Não existia nada mais desenvolvido, mais cultural, mais cheio de oportunidades do que em SP. Quando chegou a proposta de uma agência de publicidade carioca, nem por um minuto, eu levei essa oportunidade em consideração. Insistiram. Tanto insistiram que enviaram uma passagem de avião em aberto, para eu ver de perto o que me ofereciam. Passear, nunca rejeitei. Viajar, nunca rejeitei. Assim vim para o Rio conhecer a agência. Um susto me tomou. Vendo o local, as pessoas, os sorrisos, a alegria nas ruas. A diversidade. Ricos e pobres misturados. Olhar para a favelas e imaginar outra vida que acontecia por lá. Aqui elas eram visíveis. No segundo momento veio o encantamento. Era gingando que eu queria criar meus filhos à milanesa nas praias do Rio. Era me misturando aos sons, cheiros, cores, gentes que eu queria sorrir do nada como se sorri no Rio! Era andando de bugre, imagine, vendo o mar nas madrugadas que eu queria exercer meu livre direito de ser mulher após a pílula e a queima de sutiãs. Era sem embalagem e de sandália havaiana que eu queria viver a vida. De vez em quando, só de vez em quando, o uniforme de executiva.

Ir para a Cinelândia lutar por direitos. Subir os morros para entender de gente, com medo ou sem medo entender o quanto nós descuidamos da vida. Viver a Eco 92 no aterro e descobrir os pobres ambientalistas, que falam desde aquele tempo e tapamos os ouvidos. Respirar um ar ainda mais respirável.

Respiro hoje em São Conrado, no meio do verde, perto das comunidades. Foi assim que passei minha carioquice até aqui, minha vida de mulher que homenageia sempre as mulheres, elas que carregam na alma as múltiplas possibilidades de fazer nascer.

Passei pela Lagoa, que abracei atendendo Gabeira, joguei vôlei na praia até às 17 horas com crianças e tralhas para almoçar de verdade no Degrau, no Leblon. Depois a Gávea, por longos 20 anos. Shopping da Gávea, Instituto Moreira Salles meus quintais. Ipanema minha praia. Jazz no calçadão. Aprendi o balanço do corpo e do mar. Enfrentei os filhos adolescentes no Pires e no baixo Gávea. Andei pela PUC. O Rio é andar. Acima de tudo olhar. Distraia-se mas não o suficiente para não olhar para os lados, para cima! Tem um aterro de descobertas a cada estação!

Hoje meu útero é a Floresta da Tijuca nesse Rio que é mulher.

Daqui não saio, daqui ninguém me tira!

 

Foto da série “Salgado”, do nosso fotógrafo Bruno Machado.