Rio de Janeiro, 08|03|15

[Luiza Vilela]

Ao longo do último século, a duras penas e aos trancos e barrancos, as mulheres conquistaram os tão sonhados “direitos iguais” aos dos homens. Mas isso só na teoria, claro. Porque na prática ainda há leis, como a do atentado ao pudor (aquela que proíbe o topless), que deixam margem para interpretações bem machistas. Em outras partes do mundo, então, nem se fala. Há lugares em que a lei ainda assegura o direito de apedrejamento em caso de adultério, e mesmo aqui os pretensos direitos iguais não significam que a mulher possa viver sua vida como bem entender, muito menos que seja remunerada de maneira equivalente ao homem, como bem lembrou a Patricia Arquette em seu discurso no Oscar. Ou seja: somos livres, pero no mucho. Talvez estejamos vivendo um dos momentos mais difíceis da história dos direitos das mulheres – nós os conseguimos, mas não podemos exercê-los sem que todas as nossas relações humanas derrapem pra todos os lados. Chateamos as nossas famílias, que acham necessária a luta feminista, mas prefeririam que não mostrássemos o peito no jornal. Que acham bacana o sucesso profissional, mas sofrem com a falta de netos. Confundimos os nossos namorados, que querem estar com mulheres independentes, fortes e trabalhadoras, mas quase morrem de insegurança quando as encontram. Emputecemos os nossos chefes, que querem contratar líderes de pulso firme, mas na primeira discussão nos acusam de deixar a emoção falar mais alto que a razão.

Ouço muito que a minha geração não dá valor à imensa liberdade que tem, como se a liberdade fosse uma dádiva que só nos cobrisse de coisas boas. Não é verdade. Meu professor-mentor-orientador disse uma vez durante uma aula sobre poesia que o verso livre é muito mais difícil de escrever do que o verso metrificado. Claro; quando há regras há limite, há ordem. Quando não há, sobra apenas o infinito. Não estou querendo dizer que a minha vida, enquanto mullher, seja mais difícil hoje do que a vida das mulheres que viveram antes de mim. Muito pelo contrário – eu devo tudo às feministas que lutaram e sofreram antes de mim para que eu pudesse estar aqui vivendo e comentando essa confusão de hoje. Só estou querendo relativizar a questão da liberdade. Porque antes não podia e pronto. Se você quisesse, desafiava as leis e a moral e sofria as consequências. Hoje pode, mas pode meio que não podendo. Pode, mas as pessoas vão te julgar pelas costas. Pode ter uma carreira, “mas cuidado pra não fazer mais sucesso e ganhar mais que o seu parceiro, senão dá merda.” Pode não ter filho, mas “com certeza ela sofreu algum trauma na infância pra pensar assim” ou “uma hora o seu relógio biológico vai apitar”. Pode ser feminista, “mas cuidado pra não ficar chata.” Pode fazer topless, “mas tenta não se expor demais, deixa que os outros carregam essa bandeira por você.”Absolutamente todos os comentários negativos que eu ouvi quando organizei um toplessaço em Vitória tinham a ver com o que o outro acharia da minha decisão de mostrar os peitos. “Vai espantar os bofes”, “Mas o que a sua família vai pensar?”, “Você não se dá o respeito”, e por aí vai.

Newsflash, galera: o meu corpo a mim pertence. E a verdadeira liberdade, a liberdade utópica (enquanto lutamos pra conquistar as mas palpáveis), é uma sensação de serenidade que te acomete quando você se ama e se aceita por completo. Em tempos de idolatria ao corpo perfeito e a um estilo de vida que fatalmente não dá conta da nossa heterogeneidade, ser livre pra mim significa estar em paz com quem se é, e lutar para que cada mulher neste planetinha tenha o direito e a chance de exercer na prática seus direitos iguais.

 

Foto da série “Salgado”, do nosso fotógrafo Bruno Machado.