Rio de Janeiro, 03|06|12

Foto: Tiago Petrik

[Duda Salgado d'Almeida]

O escritor acaba virando um viciado em experiências. Ele passa a se colocar em lugares e situações apenas porque poderão dar um bom texto, um bom mote, uma boa crônica. Às vezes me sinto voyeur da dinâmica humana, adicta da situação alheia, da interação entre pessoas que nunca vi e nunca mais verei. Me vejo andando com de nariz para cima fuçando estranhos e suas vidas. Um amigo escritor nova-iorquino disse que aqui é um imenso cristal bruto de açúcar, e não há nada como as ruas da cidade para colher a mais vasta gama de conexões cerebrais para boas histórias.

Numa dessas investigações, cheguei a um curso de culinária indiana vegetariana perto da minha casa. Seria um intensivão de dois dias com uma cozinheira que aprendeu as técnicas há 30 anos com um monge indiano. Apenas isto. Esses eram os dados. Não fazia idéia quem era o monge, a cozinheira, tampouco o lugar e as outras cinco pessoas que formariam a turma junto comigo. Mas senti cheiro de literatura – e de curry.

Sábado, num horário onde muitos dormem, andei até a Teixeira de Melo. Descubro que o curso fica num prédio residencial grande, na direção oposta à praia. O porteiro atendia vários interfones ao mesmo tempo como um polvo estressado. A lentidão ao dizer meu nome o irritou. Fui cortada antes da última sílaba e ele continuou falando ao interfone enquanto olhava nos meus olhos. Entrei no pequeno elevador branco e apertei o botão do sétimo andar.

Estava em Bollywood e eram 9h45 da manhã.

Uma bela mulher de meia idade, loura, olhos pintados, pedra vermelha na testa e um imenso brinco dourado no nariz usando um Sári juntou as mãos e cantarolou Namastê. Duas senhoras e uma jovem que sentavam-se nos sofás cor de mostarda abriram largos sorrisos enquanto um homem, de pele núbia e calça saruel, inclinou-se para mim. Uma enorme planta esticava-se por cima dos sofás e das visitas. O chão, de madeira bem clara, contrastava com o roxo e o verde das paredes. Um móvel branco segurava porta-retratos, quadros e estátuas de Ganesha e Shiva enquanto a agradável cítara ecoava junto à fumaça ondulosa do incenso. Era um cenário pop indiano dos anos 60, cheio de cores e enfeites, e custava crer que o pedaço de mar que via-se pela janela era a praia de Ipanema.

Todas nos apresentamos, mulheres de diferentes idades e formatos de olho – nós, as grandes povoadoras desse e de outros mundos. A cozinheira espalhou sobre a mesa dezenas de pequenos potes de vidro com sementes e pós coloridos, abriu um a um e desfilou-os embaixo de nossos narizes. Cheiros indescritíveis de nomes maravilhosos, dignos do batismo de cidades imaginárias. Juntamos tudo e fizemos chutney de tomate e abacaxi, queijo, pão, iogurte de manga, masala, dentre outras maravilhosas iguarias. “Cada pessoa é um condimento diferente”, dizia a musa máxima do cinema indiano Aishwarya Rai interpretando Tilo, a “Senhora das Especiarias” do livro de Chitra Banerjee Divakaruni.

“Se quer que alguém fale tudo para você, coloque bastante canela. Se quer que se cale, vá no cominho”. Tudo tem uma explicação além-cozinha, vai pra vida, pra história, pra cultura. “Experimente colocar um mantra, ou uma música para cozinhar. Você esquece totalmente das medidas e passa a seguir aquilo intuitivamente. Cozinhar é um ato intuitivo”.

O que era apenas voyeurismo vira feitiçaria quando meu Chapati, irmão mais evoluído e saudável do pão árabe, faz uma perfeita forma arredondada e se infla no contato com o fogo.

Larguei a caneta e senti um troço esquisito que nunca tinha sentido antes.

Foi numa aula de genética que o professor disse que muitos dos nossos dons e aptidões são coisas que herdamos – não necessariamente de nossos pais, mas de nossos tataravós, e antes deles. Coisas que circulam no sangue milenar de toda família, que estão presentes em nossos cromossomos. Não são coincidências – ou dissidências. Isso me faz compreender melhor como eu, que sempre fugi da cozinha, descobri que agarro um punhado de sal com mais firmeza do que produzo um filme, ou qualquer outra coisa. Descobri que converso com as cartas melhor do que converso ao telefone. Não preciso me sentir a ovelha negra da família. Há alguém lá trás, eu posso sentir.

Cozinhar definitivamente é uma experiência alquímica e transcendental.

(Suspiro molhando o chapati num belo pote de chutney de tomate.)

Experiência literária boa é aquela que você esquece a que veio; estava só olhando, imersa, e quando vê já está trocando abraços apertados. E horas depois, escreve 3.000 palavras sobre aquilo e fica triste porque a crônica precisa ser menor do que isso. Mas, ao mesmo tempo, apenas isto.