Rio de Janeiro, 14|03|15

[André Eppinghaus] Foto de Juliana Rocha

No dia do aniversário de 450 anos do Rio, o Prefeito oficializou em decreto a Carioquice como Patrimônio Cultural e Imaterial do Rio.

Para começo de conversa, vamos estabelecer que Carioca é aquele que nasce na cidade do Rio de Janeiro e, no conceito expandido, aqueles que adotam a cidade para viver porque acabam se apaixonando por esse pedaço de mundo. Já a Carioquice é diferente. Alguns privilegiados até nascem com ela. Mas a grande maioria vai aprendendo ao longo da vida, é um atributo a ser conquistado, com práticas que envolvem simpatia, informalidade, leveza e um certo orgulho às vezes difícil de explicar.

Está lá no Decreto: “um estado mental, espiritual, corpóreo, gestual e linguístico; a afirmação desta sociedade sobre este território, buscando valores de justiça, igualdade, fraternidade, liberdade, mas sobretudo temperada pela felicidade e pela alegria”. Portanto, ser carioca define a sua naturalidade, enquanto a carioquice define a sua natureza. Não é fácil dizer se foi o Rio que inventou a carioquice ou se foi a carioquice que inventou o Rio. Um lugar que se expressa num jeito de ser e que a vida inteira flertou com a música, o cinema, a arte, a fotografia. Uma cidade que foi cultuada, exibida, aplaudida, admirada, ferida, dissecada, mas segue até hoje incompreendida.

Por muitos anos recebemos as glórias e carregamos o fardo de simbolizar a nação brasileira. Somos seres que misturam os costumes coloniais da corte com os vícios contemporâneos da cidade partida. Em algum momento no meio desse caminho, o vínculo entre o que somos e o que dizemos ser foi quebrado e o Rio passou a conviver permissivamente com tudo aquilo que, por definição, maltrata nosso orgulho, ameaça a beleza, diminui o encantamento, nos faz algozes das nossas próprias aspirações.

Num papo de bar ou nos livros de história, você vai encontrar dezenas de explicações para isso.  A minha é a seguinte: a carioquice é a alma de todo carioca, nascido ou não no Rio, um espírito dadivoso que precisa ser cultivado, compartilhado, sentido e praticado. A gente não vê, mas ele se faz presente em cada uma das coisas que vem logo à cabeça quando alguém pergunta o que é a cara do Rio. Olhe para Paulinho da Viola e Fernanda Montenegro que você vai perceber.

Só que a carioquice simplesmente não tolera alguns pecados; trama em segredo seus planos até que um triste dia parte sem dizer adeus.

Porque é difícil acreditar que o sujeito que aplaude o pôr-do-sol é o mesmo que faz xixi na rua no carnaval. Não dá pra imaginar que o mané que fecha o cruzamento é o mesmo cara maneiro que faz uma roda de samba na laje todo sábado à tarde. Ou que a garota que passa cheia de suingue a caminho do mar é a mesma que depois vai embora e deixa o lixo na praia.

Será que vivemos narcisicamente a nossa condição de cariocas e por isso fomos deixando de enxergar a cidade para enxergar somente a nós mesmos? Por que postamos fotos lindas e cheias de hashtags eufóricas pra todo mundo ver mas na vida real lidamos com a cidade como se não tivéssemos nenhuma responsabilidade por ela?

É como diz o Decreto de 1º de março de 2015. “Considerando que o Rio de Janeiro foi uma ideia de lugar antes de ser uma cidade…” e aqui eu emendo: cabe a nós decidir se vamos dedicar ao Rio afeto verdadeiro; se seremos capazes de transformar nosso amor em zelo, participação e senso de pertencimento; e praticar a carioquice de forma incondicional agora e para sempre. Ou então quando o Rio for comemorar quinhentos anos ainda estaremos vivendo a nostalgia da cidade maravilhosa.

*André Eppinghaus é publicitário e autor do Livro “Carioca de A a Z”.