Rio de Janeiro, 24|08|14

[Carlos Meijueiro/Norte Comum

Num beco da Baixa geral já sabe: Oi_velox_ap3 tá liberado. Quatro meninas estão sentadas na escada. Estão do lado uma da outra olhando seus respectivos celulares. Zap zap bombando. Às vezes uma mostra na tela alguma coisa pra outra. A do canto direito, que veste amarelo, sorri enquanto responde a mensagem que acabou de receber. Dois caras passam correndo entre elas, com radinho na mão, chinelo no pé e boné na cabeça. Um gordo e um magro. Elas nem levantam os olhos para vê-los passar. Um menino grita, Pega Ladrão de wi-fi! As meninas riem. Os periquitos passam com fuzis portentosos que brilham com as luzes do fim da tarde. Usam óculos escuros, capacete, coletes e fones no ouvido. Barulho de obra e de cachorro uivando. Os aviões chegando no Galeão . Pagode em alto volume. Eu te quero só pra mim, como as ondas são do mar, não dá pra viver assim, querer sem poder te tocar. O pequeno Jefferson solta pipa com o braço que não tá quebrado, e nos intervalos pra relaxar o pescoço, prepara uma marimba pra tentar pegar a pipa que está no fio. E assim vai acabando mais um dia. A fresta de luz já não embeleza mais a cozinha, as sombras já deixam de ser o que são. Na rua já é noite e no céu ainda é dia. A escada do beco de São Jorge agora está cheia. As conversas do zap zap geraram os encontros. Estão ali, tentando vencer a timidez que separa os olhos das pessoas que se desejam.

* Carlos Meijueiro é integrante do coletivo Norte Comum. E agora você também pode colaborar com as “Crônicas Cariocas”. Se você tem um texto superinspirado e que tenha a rua como cenário, manda pra gente ([email protected]). Esperamos por você.

 

Fotos: Gê Vasconcelos