Fotos: Tiago Petrik
(Abro aqui esse parêntese pra saudar e pedir passagem pra Duda – que você também já conhece de outros carnavais -, que a partir de agora colabora com a gente com suas “Crônicas Cariocas”. Eu já escrevi algumas, mas minha falta de assiduidade me incomodava demais, então decidi passar a bola pra quem vem cheia de gás e talento! Eventualmente, vou pedir licença pra algum pitaco, mas aproveitem bastante os textos da Duda e comentem! Bem-vinda! Boa sorte! Tiago Petrik, editor do RIOetc)
Essa é a estreia da minha coluna e a escrevo no último momento – o que é comum, já que escrevo sobre o que sinto. Escolhi como primeiro tema o carnaval, pois é ele que encerra o fluxo de acontecimentos que desemboca nesse texto. O carnaval que move minha cidade a passos de gueixa, espremido na multidão ao som do trompete e do bumbo que ricocheteia nos prédios e nas areias. O primeiro carnaval na nova casa e no novo bairro. O primeiro carnaval com amigos vindos de São Paulo especialmente para a ocasião. O primeiro carnaval depois de tantas mudanças.
O único problema é que eu não estava pronta pra tanto barulho.
Abri a porta e confessei, sem graça, que não seria a melhor companhia praqueles dias. Estava no modo caramujo, mil desculpas. Para minha sorte, meus hóspedes eram da melhor casta de hóspedes – os independentes. Então, munidos da chave de morcego que abre a toca, larguei-os por um Rio de Janeiro inédito, pedindo apenas que relatassem com olhos estrangeiros o que acontecia debaixo do meu sofá, porque eu vou ficar, meu bem.
O primeiro lampejo veio no almoço. “Vocês valorizam bem a rua, né? Lá em São Paulo é tudo fechado. Aqui, todo restaurante tem varanda ou janelão”. De fato. Não tinha percebido. E mais: sempre escolho sentar na calçada, faça chuva ou calor. Abandonei de vez o barco quando decidiram ir a praia. Vai estar lotada, pensei. Não deixem que cobrem uma fortuna pela barraca!, gritei de longe como uma velha matrona, e voltei pra casa com aquele sentimento amargo e libertário da certeza. Cinco horas depois, ao regresso dos hóspedes, perguntei como estava a praia. “Bebemos uma porrada de cervejas, mais a barraca, e gastamos R$ 35”. Não sou rata de praia, mas do jeito que estavam vermelhos e sorridentes, calculei que tinha saído barato.
Nos dias a seguir, vi meus hóspedes acordarem cedo, irem a praia, visitarem a cidade, pularem nos blocos e adentrarem minha sala com a aura dourada. Eles lançavam, “Hoje fomos almoçar em Santa Teresa”, ao que eu rebatia “Esperaram muito pra comer?”, e logo vinha o tabefe, “Não, estava super tranqüilo, não esperamos mais que 10 minutos, e ainda batia uma brisa…”. Eles diziam, “Fomos ao Bloco dos Clementianos no Arpoador” e eu soltava “Devia estar insuportável de cheio”, e mais uma vez vinha o tabefe, “Não, estava bem tranqüilo, a música era maravilhosa!”. Por último, eles lançaram “Acabamos de sair da Orquestra Voadora no aterro”, e eu proferi mais uma vez, “Esse eu sei que estava insuportável de cheio!”, e eles “Sim, estava, mas foi incrível! Só fomos embora porque ficamos sem dinheiro”.
Aí, oficialmente, saquei tudo.
Saquei que estava coberta de clichês de carnavais passados.
Há sempre muitas maneiras de ver as coisas, e me apeguei ao pior lado delas. Precisei de dois globos oculares paulistas para abrirem as portas da percepção, da cidade que é minha, mas que de tão minha tornou-se viciosa, e a insatisfação é o pior dos vícios. Sim, adorei ficar em casa lendo um livro, mas os capítulos poderiam esperar um pouco.
Nosso encerramento foi na Banda de Ipanema. Ela vestiu-se de alemã, ele preferiu ir dele mesmo e eu fui de híbrido-de-todos-os-povos-da-terra-e-do-espaço com short da seleção brasileira e cara azul. Nos metemos no meio da banda e logo me vi esmagada entre o cordão de isolamento humano formado por grandes homens musculosos e uma turba fantasiada desconhecida. Ao invés de entrar em pânico, agarrei na placa da rua que dizia Visconde de Pirajá – Joana Angélica. Senti a brisa bater e levar um pouco da purpurina do cabelo.
Meus amigos estavam rindo e filmando tudo. Olharam e me agradeceram.
Eu olhei e agradeci a eles.






































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